O funk maranhense existe e Nico prova isso em seu novo lançamento “Teu favorito”

Com inspirações que vão do interior do Maranhão até o Texas, o artista Nico, lança seu novo single, “Teu Favorito”, nas plataformas digitais. Mesclando R&B e funk ao seu sotaque nordestino, o artista referencia desde Alcione a Beyoncé em seu novo som. Músico e multiartista negro, LGBT e imperatrizense, Nico reflete suas relações pessoais em uma letra provocativa e inflama a discussão sobre a objetificação do afeto e corpos negros, ressignificando esse ato.

No cruzamento entre Imperatriz, São Luís, Salvador e São Paulo, nasce uma canção que pulsa o ritmo do coração partido, mas também da reconstrução. Em uma mistura envolvente de funk e R&B, Nico transforma a dor de uma decepção amorosa em potência criativa. Sua voz  ainda pouco ouvida no cenário musical do Maranhão  canta o afeto entre homens negros, desafia padrões e ressignifica a objetificação do corpo negro, propondo uma nova estética de presença, desejo e autonomia.

Nesta conversa, Nico compartilha o processo por trás da faixa, o impacto de viver e criar na intersecção de tantas margens, e como a arte se torna território de afirmação e cura.

Fotos cedidas pela assessoria.

P.A: Você se apresenta como um artista negro, LGBT e imperatrizense. Como essas identidades moldam a sua trajetória artística?

NICO: Eu acho que a autoafirmação é muito importante quando a gente fala de arte e de fazer arte, porque a arte é uma ferramenta que é capaz de mudar muita coisa. E acho que antes de me tornar artista, eu sou todas essas coisas que fazem o meu eu, sabe? E é muito importante também que eu diga em voz alta que eu sou um artista negro, LGBT, imperatrizense. Primeiro porque eu carrego essas coisas com orgulho. E segundo porque é importante para as pessoas saberem para onde está direcionada a minha arte: de onde ela vem, para onde ela vai, no que ela pode contribuir, e como pode se moldar como ferramenta para mudar as coisas.

P.A: Cantar sobre o afeto entre homens negros é um gesto ainda raro na música popular. O que te move a colocar esse tipo de afeto no centro da sua arte?

NICO: Eu canto e conto o que eu sinto e vivo. E eu sou um homem negro que vivencia o afeto entre homens negros. E eu olho ao redor e sinto uma ausência de artistas que fazem isso, que falam disso. Então eu venho pra preencher essa lacuna, pra poder confortar outras pessoas que tenham vivências próximas ou iguais à minha, sabe? Porque a música é tão importante pra gente sentir. E por muito tempo eu não fui capaz de sentir as coisas como eu sinto por não ter acesso a pontes que me levassem a compreender, a sentir. Quando eu me propus a fazer, eu quis me colocar nesse lugar para poder fazer o outro sentir comigo. A música e a arte são ferramentas. E durante toda a minha vida foram ferramentas para eu entender, extravasar, externalizar as coisas que eu sinto. Hoje a música se tornou uma ferramenta pra eu conseguir ressignificar minhas vivências e compartilhar isso com o outro, que talvez passe pelo mesmo. Acho que é a parte mais divertida: essa identificação.

PA: Qual é o desafio e a potência de ser um artista independente no Maranhão, cantando um gênero que não é o mais popular por aqui?

NICO: A gente tem ritmos muito exponenciais e característicos do nosso povo, como o reggae, o forró, o brega, que têm uma importância gigantesca. Mas vir e colocar na pista um som que não é tão conhecido ou consumido é mostrar que o Maranhão é tão diverso que é capaz de exportar inclusive isso. O desafio é fazer o som chegar a outros lugares, não só dentro, mas fora do Maranhão. As pessoas tendem a deslegitimar o produto maranhense, reduzir sua qualidade, excluir. E isso é forte tanto pra esse ritmo quanto pra outros também. O Maranhão é tão rico, tão necessário, tão presente… mas não é reconhecido. Isso não tira o valor, mas tira o alcance. Se as pessoas entendessem o peso e a qualidade da nossa arte, ela estaria nos grandes festivais, ocupando mais espaços e impactando mais pessoas. Esse é o maior desafio: o reconhecimento da qualidade e o alcance da produção maranhense.

PA: Você mistura o funk com o R&B dois estilos com histórias marcadas pela resistência negra. O que essa escolha estética representa pra você?

NICO: O funk e o R&B sempre estiveram muito presentes na minha vida. Foram importantíssimos pra eu me reconhecer enquanto homem negro. Acho que não fui eu quem escolheu eles foram eles que me escolheram. Porque eles me representam. Eles fazem eu me enxergar, me entender. E eu senti, assim, muito, muito mesmo. Não poderia estar mais feliz com essa mistura de ritmos que são tão diferentes, mas tão parecidos ao mesmo tempo.

PA: A faixa conecta Salvador, São Paulo, São Luís e Imperatriz. Quem são essas pessoas? Como foi trabalhar com pessoas de diferentes cidades? Que trocas aconteceram nesse processo?

NICO: A gente tem aí produtores, fotógrafos, pessoas dos bastidores envolvidas. Geograficamente, essa conexão é muito importante porque toca diretamente a questão do alcance e do reconhecimento do produto maranhense. Essas pessoas me reconheceram, assim como eu as reconheço. E todo mundo evolui muito nesse processo. Tem trocas culturais, de ideias… é uma soma linda, que faz toda a diferença no produto final. Sou muito grato por poder vivenciar isso e compartilhar o resultado com as pessoas.

PA: Em um momento da letra ou da sonoridade, você sentiu que estava curando algo em si? Ou talvez curando algo coletivo?

NICO: Essa música fala muito sobre ser escolhido, e também sobre não ser escolhido. Sobre como nossa pele é tocada, como nossos corpos são vistos, como precisamos assumir as rédeas da nossa perspectiva. Acho que, coletivamente, ela toca em pontos que geram identificação, mas pra mim foi um processo de cura muito individual, que vai acabar curando outras pessoas também, especialmente quem passou por questões de autoestima e vivências afetivas como as minhas.

PA: Você fala sobre ressignificar a objetificação do corpo negro. Como essa reflexão aparece na música e no modo como você performa sua imagem como artista?

NICO: A objetificação é algo que chega na nossa vida antes mesmo da gente se entender, se desenvolver. Eu peguei muito do que as pessoas colocavam em cima de mim e me coloquei na posição de tomar as rédeas, pontuar que agora sou eu quem comanda o jogo. Eu que estou no controle. Se a gente não tem esse olhar e esse despertar, acaba sendo levado por essas coisas, e isso afeta como a gente se sente na própria pele. Isso aparece na minha performance como forma de empoderamento mesmo e também como uma forma de inspirar outras pessoas a se colocarem nesse lugar de donos de si, de prioridade.

PA: O que significa cantar sobre desejo, afeto e vulnerabilidade sendo um homem negro? Quais fronteiras isso rompe?

NICO: Só de cantar sobre desejo, afeto e vulnerabilidade já se rompe fronteiras. Porque dificilmente esses temas são discutidos quando se trata da vida de um homem negro. Somos tão desumanizados, colocados em posições que nos tiram até o direito de nos sentirmos desejados de forma saudável, de viver o afeto de forma saudável, de sermos vulneráveis. Só tocar nesses assuntos já é romper fronteiras. Porque esses assuntos simplesmente não existem no debate popular.

PA:Como você enxerga o papel da sua música no atual cenário cultural do Maranhão e do Brasil?

NICO: Entreter, tocar, divertir. E principalmente mostrar que a gente tem um produto de qualidade, sonora e visualmente falando. Que tem potencial como os muitos outros que estão nos charts, que estão sendo exportados nacional e internacionalmente. O Maranhão tem capacidade de estar nesses lugares. Mas é excluído.

PA: Que tipo de histórias e corpos você quer ver e ouvir mais na música brasileira? 

NICO: Quero ver cor e diversidade no nosso som. Quero que as pessoas do meu bairro se sintam inspiradas a fazer. Que os meninos que me viram lançar música e falaram que queriam fazer igual, façam. Quero que as pessoas das periferias da minha cidade se sintam capazes e inspiradas. Que a arte esteja mais presente nas escolas, que políticas públicas sejam desenvolvidas pra que a arte seja uma possibilidade real. A arte é uma ferramenta política. E pode salvar muita, muita, muita gente.

PA: Que resposta você espera do público ao ouvir essa música? 

NICO: Eu não tenho expectativa de resposta nenhuma. Não penso em números. Hoje penso em fazer uma parada que eu tenha orgulho, que eu abrace primeiro. Que eu sinta que pode gerar identificação, diversão, emoção. Só isso já basta. Mas claro que espero que muita gente ouça. Que sejam felizes ouvindo, como eu fui fazendo. Enquanto não lanço, a música ainda é minha. Mas depois que coloco no mundo, ela é das pessoas. E espero que sintam muito do que eu senti.

Siga Nico nas redes sociais oficiais do artista: Instagram: @nicogms

https://www.youtube.com/@nicogms

Daniela Souza

Jornalista especializada em Assessoria de Comunicação Organizacional e Institucional. Já vivenciou experiências profissionais nas áreas de publicidade e propaganda, produção de documentários, radiojornalismo, assessoria política, repórter do site jornal Correio de Imperatriz e social mídia. Boa parte de suas experiências profissionais foram em assessorias de comunicação institucional de ONGs, com ativismo social voltado para a defesa de direitos humanos, justiça socioambiental e expansão da agroecologia na região do bico do Papagaio; esses trabalhos ocorreram nas cidades de Açailândia, Imperatriz (MA) e Augustinópolis (TO).

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