Ao povo do Assentamento Califórnia,
É momento de celebrar! Celebramos o marco de três décadas de existência e resistência. Celebrar, no presente, a trajetória que nos trouxe até aqui. Afinal, 30 anos não são trinta dias; é preciso aqui dizer que 30 anos são 30 anos. Mas, além do júbilo da data, é também necessária a reflexão.
O que esse Assentamento é hoje não foi obra do acaso, nem resultado de concessões espontâneas. Cada um dos 4.150 hectares desse território foi fruto da coragem e ousadia das mais de 200 famílias que, no dia 26 de março de 1996, ocuparam esse grande latifúndio, a saber: Fazendas Califórnia, Califórnia I, Divisor IV, Rosa Branca, Taúba, Nova, Santa Rosa, Alegria, União, Bandeirante e Divisor III. Constituindo o que nós chamamos de Assentamento Califórnia.
É historicamente justo relembrar que, ao chegar aqui, houve o desafio do despejo, a penúria nos barracos de lona, palha e paredes de umbaúba durante meses de acampamento, a contemporaneidade de um massacre no estado ao lado, as incertezas judiciais, a dificuldade em arranjar água para os afazeres, a espera por doações de alimentos e a marcha de diálogo e luta até a capital.
Olhando do alto de nossa trajetória existencial, o que mais cintila nela, hoje mais do que nunca, é o princípio do “nós por nós”. As casas de alvenaria em que hoje vivemos, a energia elétrica que abastece a vila e as parcelas de terras, a água que agora flui em nossas torneiras, a escola que ensina os filhos e filhas desta comunidade, o posto de saúde, a pavimentação das ruas e a nossa persistente produção de alimentos, todas as conquistas nessa terra só existiram quando nós nos dispusemos a cooperar e a nos organizar, unificando ideias e ações. Acreditar no “nós por nós” não é negar que também somos frutos do acolhimento de muitos parceiros que até hoje nos abraçam.
Também não é a busca do isolamento como método de caminhar. Àqueles que vêm nos abraçar, nós os recebemos. Mas é importante que se diga que o protagonismo de nossas vidas é nosso e que qualquer ajuda externa só é efetiva se encontrar aqui uma base organizada.
O entendimento é que, a cada dia que passa, urge a necessidade de sermos comunitaristas. Os próximos anos do Assentamento Califórnia não serão definidos apenas pelas condições externas, mas, sobretudo, pela nossa capacidade de continuar agindo como comunidade (comum unidade). Precisamos entender que ajudar o nosso vizinho do lado é fortalecer o todo e, fazendo isso, fortalecemos a nós mesmos.

Compreender que a resposta mais segura para a resolução dos problemas do Assentamento Califórnia está dentro da própria comunidade. Trabalhe para sua comunidade, valorize o trabalhador da sua comunidade. E se você doasse parte do seu precioso tempo para melhorar algo que lhe incomoda? Não adianta apenas se apoiar na garupa da crítica; é necessário, por vezes, também tomar as rédeas da ação com as próprias mãos.
Todos querem viver numa aldeia, mas nem todos querem ser aldeões. Olhar para os próximos 30 anos é também forçar, ativamente, no nosso cotidiano, a superação dos nossos vícios internos, como a desunião, a acomodação e o individualismo. É saber que, mesmo divididas em várias, as associações, quando unidas, superam os desafios. É olhar para dentro, enxergar e incluir personagens internos e vivências em que o estigma costuma chega antes do valor, como a juventude, por exemplo. Olhar para o futuro não é anular diferenças, mas construir pontes que liguem cada ilha desse imenso arquipélago que se tornou essa comunidade. É tempo de fortalecer laços.
Por fim, ser comunitarista é sentir correr nas veias o sangue quente da convergência de ideias. É se inspirar na união dos primeiros anos, filtrando-a diante dos novos desafios dos dias atuais. É ter a capacidade de entender que, se chegamos até aqui, foi porque ajudamos a nós mesmos. Então, nesses 30 anos, eis o manifesto maior: não espere que seus vizinhos façam, faça você mesmo. Não espere o companheiro vir lhe pedir ajuda, ajude-o antes. Não espere a solução chegar de carro pela rodovia, junte-se com mais dois ou três e faça acontecer aquilo que deve acontecer para melhorar a vida neste assentamento. As perguntas estão em nós. As respostas também estão em nós.
NÓS POR NÓS.
Assentamento Califórnia, 26 de março de 2026.
GT da Jornada de Comemorações dos 30 Anos do Assentamento Califórnia
Não escreve só sobre o que acontece, escreve também sobre o que escapa. Sua coluna atravessa cotidiano, memória, bobeiras necessárias e pensamentos que surgem no meio do caminho. É militante social, promotor de cultura, educador e comunicador popular, com atuação em territórios do campo de Açailândia-MA. Aqui, nem todo texto vem para explicar. Alguns vêm só para existir.



