Arte que resiste: Mostra Afro de Artes Cênicas transforma o Teatro Ferreira Gullar em palco para narrativas negras

(Uma reportagem em três atos)

Ato I:

Entre cortinas pesadas e um palco iluminado, o teatro Ferreira Gullar abriu suas portas para as apresentações da IX Mostra Afro de Artes Cênicas – Marcas 2025, realizada pela Companhia Afro de Teatro Reinvent’arte (CIARTE). Em parceria com o Centro de Cultura Negra Negro Cosme (CCN-NC), o evento teve como tema o protagonismo negro e a democratização do acesso à arte. A proposta dialoga com o Teatro Experimental do Negro (TEN), movimento artístico e social criado em 1944 por Abdias Nascimento, ator e defensor dos direitos civis e humanos da população negra no Brasil. Entre os dias 13 e 16 de novembro, o evento transformou Imperatriz, no Maranhão, em um centro pulsante de arte que afirma a identidade negra.

Encenação do espetáculo ‘O sertão e el desierto’ com o ator, diretor de teatro e professor, Domingos de Almeida e a professora de teatro de Cancún, da companhia Lapa Lapa Teatro, Scarlett Arias – México. Fotografia cedida pela coordenação do evento.


A programação iniciou na manhã da quinta-feira (13), com a palestra, “Movimento Negro e Democracia Racial”, ministrada pelo professor doutor da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Domingos de Almeida. A abertura ocorreu no auditório da UFMA, no centro. No domingo (16), peças teatrais de Imperatriz e municípios vizinhos, nas categorias estreantes, estudantis e amadoras, ocuparam o palco do teatro Ferreira Gullar. “O Reino dos Mal-humorados” e “O Menestrel”, da Companhia de Teatro Primeiro Ato, de Alto Alegre do Pindaré, foram alguns dos espetáculos do festival. Para além das peças, apresentações de dança, como as do Grupo Afixiré e Kizomba, marcaram presença.

Performances como a da atriz mexicana Scarlett Arias, professora de teatro de Cancún, da companhia Lapa Lapa Teatro, marcaram a edição internacional, uma novidade comparada às anteriores. A atriz elogiou as apresentações das peças teatrais e a realização do evento, comemorando a oportunidade de participar. “Sabia que vinha a uma mostra que já era de resistência, empoderamento e crescimento como comunidade. Há muitas pessoas talentosas. Me refrescou vê-los atuando”, declarou.

No domingo (16), durante a noite de encerramento, ocorreu a cerimônia de premiação, onde espetáculos e seus artistas foram reconhecidos por suas atuações e preparação das peças teatrais. A premiação foi dividida nas categorias: melhor ator/atriz coadjuvante, melhor ator/atriz principal, melhor direção e melhor espetáculo. José Reinaldo, diretor das peças “O Menestrel” e “O Reino dos Mal-humorados”, conquistou cinco prêmios na categoria estudantil, incluindo o de melhor direção.

A conquista, comenta o diretor, vem de um trabalho que foi constantemente aperfeiçoado até o dia da apresentação. “O Menestrel foi um espetáculo que trabalhamos muito durante o ano todo. O nervosismo da minha filha, que é a atriz, era grande, mas a gente inspirou confiança para que ela viesse e desse conta do recado. Tínhamos um compromisso de chegar aqui e mostrar alguma coisa que fosse convincente ao público”.

Equipe de apoiadores/as; organizadores/as e membros/membras do Centro de Cultura Negra – Negro Cosme (CCN-NC). Fotografia cedida pela coordenação do evento.

Ato II

Iniciada em 2013 em uma escola pública, a Mostra de Teatro Afro-Brasileiro tem se consolidado como um importante espaço de valorização da cultura afro-brasileira em Imperatriz. Domingos de Almeida, também um dos organizadores, destaca que a mostra tem raízes profundas na cidade, com o movimento negro presente desde 2002.

“Hoje, estamos ocupando um espaço significativo. No início, começamos com um espetáculo, e este ano apresentamos 14, envolvendo quatro cidades. Estamos crescendo, e o Maranhão está abraçando nosso projeto”, afirma Domingos, com entusiasmo, ao mencionar a participação de grupos de Alto Alegre do Pindaré, Lajeado Novo e Açailândia.

As dificuldades enfrentadas nos anos anteriores, especialmente em relação à escolha de locais, foram superadas. Idayane Ferreira, assistente da coordenação, relata que a preparação para a 9° edição começou no ano passado, com um trabalho prévio nas redes sociais para manter o público informado. “A organização leva pelo menos dois ou três meses. É um trabalho intenso, que envolve desde a divulgação até a logística no local do evento”, explica.

O trabalho cuidadoso, no entanto, não impede a organizadora de expressar suas expectativas: “O teatro deve ser acessível a todos. Fiquei feliz ao ver monitores que nunca tinham ido a um teatro participando da organização e assistindo aos espetáculos pela primeira vez. Isso é fundamental para a formação do público e dos artistas”, conclui, destacando a importância do festival não apenas como entretenimento, mas também como ferramenta de educação e inclusão.

Com um legado que cresce a cada edição, a Mostra Afro completará seus 10 anos em 2026 e promete continuar sendo um farol de cultura e resistência em Imperatriz, celebrando a diversidade e a riqueza da expressão afro-brasileira. “Eu fico muito feliz com o resultado, a nossa 9° Mostra Afro de Artes Cênicas é o resultado de que o que estamos fazendo até agora tem dado certo. Colocar pessoas negras no protagonismo, colocar histórias negras para serem contadas no palco, eu estou muito feliz com o resultado!” celebra Domingos.

Coordenação do evento com a Companhia teatral de Açailândia-MA, Cordão de teatro. Fotografia cedida pela Coordenação do Evento.

Ato III

No apagar das luzes do último espetáculo, enquanto o eco dos aplausos ainda circulava pelo Ferreira Gullar, a Mostra deixava a impressão de que o palco havia feito mais do que receber artistas: havia costurado histórias, que agora seguiam fora das cortinas. “É muito necessário, em todas as cidades, que jovens se unam, e melhor, através das artes”, compartilha Scarlett. Com os pés fincados pela primeira vez em um palco brasileiro, Maria, personagem interpretada por Scarlett, ganhou vida. O público distribuído em seus assentos, na maioria jovens do ensino médio e superior, reflete, para a atriz, o “impacto” de unir-se por uma mesma causa.

Não muito distante, o movimento negro e militante em Imperatriz, base para elaboração do evento, fortalece o espaço onde vozes e narrativas negras ecoam. Apoios como os do Centro de Cultura Negra – Negro Cosme (CCN-NC), abrem caminhos para que discussões raciais ocupem o centro do teatro. “A diáspora africana que aqui se instala, nos traz esse movimento de compreensão, que é possível as coisas acontecerem”, destaca a professora e ex-presidente do CCN-NC, Herli Carvalho. Das cortinas ao chão de madeira, o envolvimento atravessa as atuações e se encontra para muito além do palco.

“Eu acho que a Mostra tem esse papel, não só de quem veio trabalhar na organização, mas para o público, de que o teatro é algo acessível a todos”, declara Idayane. Essa vivência no palco e fora dele também encontra eco em outras reflexões. A filósofa e escritora Djamila Ribeiro diz que, para atuar em uma realidade, deve-se, antes de tudo, tirá-la da invisibilidade. Em meio às cortinas que se fecham ao fim das atrações, Herli reforça essa ideia ao destacar a importância do apoio institucional para o fortalecimento do movimento. “Trazer a cultura negra para ser discutida, visibilizada, desconstruída em muitos elementos, reforça o crescimento da consciência negra”.

Ao ocupar o teatro com vozes e corpos invisibilizados, a Mostra revela, na prática, o alcance de uma política pública quando deixa de existir apenas no papel. O evento se coloca como consequência do investimento de editais e leis como a de Paulo Gustavo que abrem espaço para jovens artistas tornarem visíveis diversos temas, estéticas e narrativas. É possível, em performances como “Xica do Sertão”, encontrar o cruzamento entre arte e resistência. “A percepção de que a gente pode ter narrativas positivas sobre pessoas negras, em papel de destaque, protagonismo”, conclui Idayane.

Reportagem colaborativa:

Ana Luiza Nogueira;

Brenda Marques;

Edlene Galeno;

Elson Supapinho;

Iago Sousa;

Vitória Guajajara.

redação

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