Pesquisa revela desafios enfrentados por jornalistas negras no Maranhão

Uma pesquisa realizada na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus Imperatriz, revelou as dificuldades enfrentadas por jornalistas negras no mercado de trabalho do Maranhão, em relação a temas como racismo, machismo e à precarização da profissão.

Coordenado pela professora doutora Leila Sousa, o projeto foi motivado pela ausência de dados sobre o perfil racial das jornalistas no Maranhão, o que levou a pesquisadora a buscar compreender não apenas onde estão essas profissionais, mas porque muitas delas deixam a profissão ainda jovens. 

Em sua tese de doutorado, ela já havia explorado a relação entre raça, gênero e cidadania comunicativa, tendo o Maranhão como território de análise. “Quando fui buscar dados sobre a presença de mulheres negras no jornalismo local, encontrei muita dificuldade. Isso me levou a me perguntar: onde estão essas mulheres? Que cargos elas ocupam? Que entraves enfrentam?”, relata.

O estudo envolveu a aplicação de questionários a 24 jornalistas do Maranhão e depois a realização de entrevistas online com 9 profissionais de Imperatriz e São Luís, as duas maiores cidades do estado e polos de formação em jornalismo. 

De acordo com os dados, 58,3% das jornalistas nunca ocuparam cargos de chefia nem conhecem mulheres negras em posições de liderança nas redações, e 91,7% disseram que esses cargos são ocupados majoritariamente por pessoas brancas. Além disso, 46% das entrevistadas têm mais de um emprego e 33,3% trabalham mais de 40 horas por semana, o que evidencia a precarização e a baixa remuneração.

A jornalista recém formada, Clara Teles, que participou da equipe de pesquisa, destaca o impacto que os relatos tiveram sobre ela. “Foi forte ver como o racismo e o machismo se manifestam de forma concreta no dia a dia das redações. Muitas relataram situações de assédio, invisibilidade e microagressões”, comenta. 

A faixa etária predominante das participantes está entre 25 e 34 anos, revelando uma concentração de jovens mulheres negras no setor. Para Clara Teles, a pesquisa serviu também como um alerta. “Se não pensarmos em alternativas e políticas para mudar esse cenário, outras jovens negras vão continuar desistindo da profissão”, diz.

O estudo mostrou a predominância de jornalistas negras atuando na área de Assessoria de Imprensa (50%). Para a estudante de jornalismo Maria Eduarda Anchieta, “além do quesito salário desigual ao mesmo cargo ocupado entre diferentes pessoas, também pode ser exposto a forma como a mídia pouco dá oportunidade à mulheres pretas de estarem no centro, de serem vistas e ouvidas como porta voz de notícias”. 

Outro dado revelado foi a ausência de mulheres negras em cargos de chefia. Para Leila Sousa, isso está ligado a um fenômeno descrito por Cida Bento como “Pactos Narcísicos da Branquitude”, ou seja, acordos silenciosos entre pessoas brancas para manter privilégios. “Essas mulheres são extremamente capacitadas, mas não são lembradas, não são consideradas para posições de liderança. Não por falta de competência, mas por causa do racismo estrutural”, afirma.

Para Clara Teles, há uma lacuna na forma como esses temas são abordados na graduação. “A gente tem que saber como lidar com isso também e como trazer essas histórias para o público. Então faltou isso no curso sim, na minha trajetória acadêmica, por conta de faltar mais informações a respeito de gênero e de racismo”, afirma. Já Maria Eduarda Anchieta avalia que os temas estão presentes, mas depende do engajamento de cada estudante. “Na verdade, isso vai das escolhas de cada um, porque mesmo que essas pautas não estivessem presentes em aula, sempre tiveram muitas palestras, rodas de conversas, grupos de pesquisa e estudo, mesas abertas e muito mais sobre esses assuntos”, destaca.

A ausência de referências negras no jornalismo também aparece como um ponto importante. A professora Leila Sousa, avalia que isso “enfraquece e desmotiva as mulheres a seguirem na profissão. A gente passou muito tempo tendo como única referência a Glória Maria. Depois veio a Maju, mas ainda contamos nos dedos as jornalistas negras conhecidas. Essa falta de referência causa um sentimento de vazio”, afirma.

Foto destacada: Portal Terra.

Ana Maria Nascimento

Sou Ana Maria Nascimento (ana.mcn@discente.ufma.br), estudante do 7° período do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus Imperatriz/MA. Gosto muito de escrever conteúdos culturais e acredito que o jornalismo se faz no encontro com o outro e na escuta que respeita.
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