Quando uma casa habita em nós

Li estes dias um livro muito sensível que conta a história da família Conroy. 

“A Casa Holandesa”, de Ann Patchett, uma ficção história de narrativa não linear onde passado e presente são intercalados na narrativa num fluxo de pensamento de Danny, o narrador. A história é tão fluida que me sentia como uma participante do enredo, pois o livro é muito visual e envolvente. Vemos a casa com seus detalhes, participamos da vida da família, sentimos as dores de Danny e de sua irmã e vamos acompanhando cada passo destes irmãos ao longo dos anos. 

Danny nos conta num misto de rememoração e de relato dos fatos como seu pai entra no ramo imobiliário após a Segunda Guerra Mundial, sobre como a oportunidade de investir em terrenos e em imóveis por valores muito abaixo do mercado o ajudou a criar um império. 

Uma de suas primeiras aquisições foi a casa holandesa, uma grande propriedade num subúrbio da Filadélfia. A família sai de uma vida de pobreza e de privações para uma vida de excessos. A casa holandesa é o centro da narrativa, o símbolo dos conflitos e de mágoas vivenciados para além dos muros de tílias da propriedade, pois a história se dá em torno da propriedade, que aliás, é uma personagem da trama. 

Léon Tolstoi nos fala que “todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”, pois toda família tem sua repetição sintomática que aparece em cada um dos seus membros. A mãe não suporta a casa e vai embora, deixando para trás filhos, marido e a casa. O pai casa novamente e entram uma madrasta e suas duas filhas. Claro que a conta não fecha: a madrasta casa-se com a propriedade, o pai sai pela tangente em toda oportunidade que pode, Maeve vai para um apartamento no centro da cidade e Danny e as filhas da madrasta ficam entregues à própria sorte. O pai morre e Danny e Maeve são expulsos do paraíso. 

A Casa Holandesa se debruça sobre questões de herança, de amor, de perdão e do que é feita a família no um a um dos seus membros. Quando vamos adentrando no romance familiar, vemos como cada um se faz parte nesta estrutura familiar e como vão repetindo ao longo da vida a herança simbólica, os afetos e as transformações ocorridas na estrutura familiar, sobretudo quando se trata da transmissão do desejo “com um desejo que não seja anônimo”, ou seja, há alguém a quem se pode endereçar o desejo. O pertencimento ao grupo familiar.

Cada família tem um irredutível, um núcleo do qual não se é possível diminuir. Daqui não se passa. Para Danny e Maeve, este núcleo era incerto: nada se sabia sobre sua mãe. Sobre o pai, eles sabiam que havia orientação do seu desejo para sua mãe, o que garantia a transmissão do desejo familiar entre eles, mas não foi uma cola suficiente para deixá-los unidos no laço do parentesco.

Este livro poderia ser contado por diversos vieses, principalmente sobre a maternidade, uma maternidade difícil de ser vivenciada. Abandonar filhos e ser abandonado pela mãe fazem parte do horror que permeia a nossa fantasia. O que se é possível quando somos abandonados por nossa mãe? O que se é possível (re)construir com o que resta dela? E quando não temos lembrança desta mãe? O que leva uma mãe a abandonar seus filhos e sair pelo mundo apostando em suas escolhas e desejo? São perguntas que vamos nos fazendo ao longo do texto junto com Danny e Maeve.

A Casa Holandesa é um livro profundo sobre relações familiares e sobre o que se é possível fazer com o que resta de uma família. As reflexões, os erros, as fraquezas e a possibilidade de elaborações sobre os arranjos familiares são características que nos aproximam das personagens, fazendo-nos pensar que Tolstoi tem certa razão. São personagens densos, muito bem construídos, com traços de personalidade que vão sendo traçados ao longo dos anos. Chama atenção o amor, amparo e conforto que Danny e Maeve vão construindo na relação dos dois. Ponto alto para as inúmeras conversas regadas a cigarro, a mágoa e a raiva dentro do carro velho de Maeve em frente à casa. 

O livro nos convoca a reflexão sobre nossa própria vida, pois somos capturados pela identificação com as cenas familiares que acontecem em cada família, porém cada uma a seu próprio modo e com a sensação de “estar em casa”. Nos deparamos com nosso passado, nossa família e nossas escolhas e nos perguntamos por que, às vezes, é tão difícil seguir em frente? 

Ficha técnica: A casa holandesa, de Ann Patchett, Ed. Intrínseca, 320 páginas.

Lília Sampaio

Sou Lília Sampaio, psicóloga em Salvador, Bahia e uma psicanalista que gosta de histórias. Em minhas horas vagas, gosto de meus discos, livros, filmes, bichos, plantas, saidinhas com amigos e ficar em casa com minha família. Se você desejar fazer análise, faço atendimento presencial e online.

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