Murakami fazendo folia em minha vida

O período pré e pós-eleitoral fez uma bagunça em minha rotina. Como trabalho em dois lugares com temas diametralmente opostos, necessito ter uma rotina organizada para que um trabalho não invada o outro, então uso a agenda como uma aliada. Mas nossa vida não se resume em trabalho, não é? Além dos meus estudos, tenho também alguns prazeres que fazem parte de minha rotina: ler e ver as novidades nos streamings da vida.

Tenho um hábito antigo de comprar livros e sabemos que nossa leitura nunca acompanha a quantidade de livros que temos em nossa estante, então tenho sempre um livro em minha cabeceira. Mas o que dizer da pessoa que passa um tempo precioso mergulhada em redes sociais? Confesso que amo o twitter, mas nestes últimos dois meses, me vi deixando de ler meus livros e ver minhas séries e filmes para me atualizar das barbaridades que nossa vida eleitoral se transformou. Fui engolida pelo roteiro de quinta categoria sobre esta temporada do que se transformou o Brasil e precisava reagir!

Quando preciso retomar o hábito de estudo e de leitura, revisito o livro “Do que eu falo quando falo de corrida”, de Haruki Murakami, pois neste livro, ele intercala textos sobre sua vida pessoal, suas corridas de longa distância, sobre a decisão de vender seu bar de jazz e se dedicar à escrita após ganhar um prêmio literário e sobre sua disciplina. Fico encantada em como ele costura sua vida pessoal com seus afazeres e prazeres e funciona como um sopro de esperança de que a vida não se resume a trabalho. A forma como ele constrói a influência da corrida em sua vida nos faz pensar em como dedicamos à nossa rotina como uma obrigação e esquecemos de nos dedicar com a mesma intensidade aos nossos prazeres. É difícil não se identificar com os relatos de treinos e provas e das emoções envolvidas no processo de treinar e de competir. Lembrando que para ele, correr é o que o faz seguir em frente.

Trabalho das oito às quatro da tarde com processos, papel, certificado digital e pessoas que estão pleiteando seus direitos na Justiça. E depois parto para minha segunda profissão: escuto histórias de meus pacientes. Dedico um tempo privilegiado de minha vida trabalhando com pessoas de carne, osso e substância, então como não seguir em frente?

Filmes e livros me contam histórias e enriquecem a minha escuta e o meu estilo no trabalho, pois tanto no Judiciário quanto no consultório, estou diante de pessoas que têm muito o que me contar.

Dito isto, volto para o processo eleitoral: como escutar o outro diante de mim se eu estiver por fora do que estamos vivendo? Como não me interessar pela política e por economia se somos seres entrelaçados pelo social e pela política? Murakami tem razão ao me mostrar que “não importa quão mundana uma atividade possa parecer, mantenha-a por tempo suficiente para que se torne um ato contemplativo, até mesmo meditativo”.

E você? Se angustia com o que faz com o seu tempo?

Lília Sampaio

Sou Lília Sampaio, psicóloga em Salvador, Bahia e uma psicanalista que gosta de histórias. Em minhas horas vagas, gosto de meus discos, livros, filmes, bichos, plantas, saidinhas com amigos e ficar em casa com minha família. Se você desejar fazer análise, faço atendimento presencial e online.

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