A nova face da exploração não usa uniforme. Usa contrato PJ.
Ela chega com um vocabulário sedutor: “flexibilidade”, “autonomia”, “parceria”. Mas, no cotidiano, o que se instala é outra coisa: a vida profissional em modo de urgência, a cobrança como se fosse CLT, e uma proteção institucional reduzida ao mínimo. Sem vínculo. Sem estabilidade. Sem aviso prévio. Sem responsabilidade compartilhada. E, ao mesmo tempo, com tudo aquilo que não cabe numa nota fiscal: disponibilidade integral, respostas “para ontem”, demandas que atravessam horários, fins de semana e saúde. Você não é funcionário, mas precisa se comportar como um. E se não se comporta, é “difícil”. Se pede previsibilidade, é “inflexível”. Se não aceita a urgência eterna como regra, “não performa”.
Chamam isso de flexibilidade. Flexível para quem?
No fundo, a pejotização opera como uma sofisticada transferência de risco. A instituição mantém a operação funcionando, mas desloca os custos do trabalho para o indivíduo. É ele quem emite nota, paga impostos, abdica de 13º, férias, descanso
remunerado, proteção em caso de adoecimento — assumindo a instabilidade como parte do pacote. E, não raro, ainda precisa parecer grato, como se a ausência de direitos fosse um privilégio moderno.
Se, por um lado, o país comemora índices mais baixos de desemprego, por outro mantém cerca de 40% de sua força de trabalho na informalidade, segundo dados do IBGE. Ao mesmo tempo, mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais e comportamentais foram registrados pelo INSS em 2025. O debate sobre pejotização não é apenas jurídico ou contratual; é também uma discussão sobre saúde coletiva e sustentabilidade institucional.
É importante reconhecer que a pejotização não é um fenômeno restrito ao terceiro setor. Ela atravessa empresas privadas, startups, grandes corporações e a lógica contemporânea do trabalho. O que torna o debate especialmente sensível nas
organizações de impacto é a necessidade de coerência entre valores defendidos publicamente e práticas adotadas internamente. Quando essa lógica se consolida dentro de instituições que, publicamente, defendem causas estruturais, a contradição deixa de ser apenas econômica e se torna também moral e política.
A missão institucional fala em transformação. A prática interna, por vezes, reproduz relações descartáveis e culturas de gestão orientadas pela pressão constante. Esse fenômeno não é novo. Em estudos sobre cultura organizacional no terceiro setor, pesquisadores já apontaram o chamado “ciclo da fome das organizações sem fins lucrativos”, uma lógica em que instituições evitam investir em estrutura e pessoal para parecerem mais eficientes aos financiadores. O resultado é previsível: sobrecarga crônica, normalização do sacrifício e a romantização do sofrimento como prova de compromisso com a missão.



