A partida desigual: IA e o apagamento histórico das mulheres

Enquanto preparava uma palestra de divulgação para estudantes do Ensino Médio, resolvi pedir uma ajudinha à Inteligência Artificial. O comando foi simples: “Me dê exemplos de personagens na história que jogavam xadrez.” Afinal, o xadrez, esse jogo milenar que atravessa séculos e fronteiras, ocupa um lugar curioso na cultura de muitos povos — símbolo de estratégia, raciocínio e paciência. Não é de se admirar, portanto, que tantas figuras históricas tenham se encantado por ele e o tenham incorporado, de algum modo, à própria trajetória.

A IA respondeu, em alguns segundos, com exatamente 21 nomes, divididos em 5 categorias: Cientistas e Matemáticos (4), Líderes e Governantes (4), Artistas Escritores e Músicos (5), Filósofos e Pensadores (3) e Figuras Contemporâneas (5). De Pierre de Fermat (1601-1665) à Will Smith, passando por  Benjamin Franklin (1706–1790), Karl Marx (1818–1883) e John Lennon (1940–1980), para citar um de cada século, o único elemento que os une (além do xadrez, é claro, é o fato de serem todos homens.

Incomodada com a resposta inicial, pedi então que a IA me apresentasse ‘mulheres da história que jogavam xadrez‘. O resultado veio organizado em 13 nomes distribuídos em cinco categorias: As pioneiras – mulheres que desafiaram as regras (2), As intelectuais e educadoras (3), As mulheres que transformaram o xadrez moderno (3), As referências contemporâneas (4) e Personagens culturais e simbólicas (1). Entre elas, surgiram figuras como Vera Menchick (1906–1944), a primeira campeã mundial; Judit Polgár e suas irmãs, Susan e Sofia Polgár; Pia Cramling (1963–), uma das primeiras mulheres a competir regularmente em torneios mistos; e até Beth Harmon, a personagem fictícia da série O Gambito da Rainha.

Não vou entrar nem no mérito do fato da primeira resposta só gerar homens. Já há diversos estudos indicando que a IA é tendenciosa para estereótipos. Mas, o último resultado me chamou a atenção para outro padrão: na primeira lista de personalidades, ou a “lista dos homens”, um único nome de enxadrista profissional aparece, o de Magnus Carlsen, na lista de Figuras Contemporâneas. Na segunda Lista, a lista das mulheres, um único nome aparece que não está relacionada com a prática profissional do xadrez, é ela Simone de Beauvoir (1908-1986). Beauvoir foi uma filósofa, escritora e intelectual francesa, cujas ideias são a base do feminismo moderno. Na lista gerada pela IA, ela aparece, juntamente com as irmãs Polgár, no grupo de Intelectuais e Educadoras.

As personalidades que fazem parte da primeira lista são conhecidas mundialmente por atividades que não se relacionam com o xadrez (à exceção de Carlsen, obviamente). Todas elas usam o xadrez como hobby, diversão, distração, ou como atividade complementar para desenvolver habilidades cognitivas de interesse. As mulheres da segunda lista (à exceção de Beauvoir) são conhecidas exatamente pela sua relação com o xadrez e, às vezes, nem por isso.

Esses resultados me levaram a alguns outros questionamentos que culminam em: onde estão as mulheres que “brincam” de xadrez? Basta buscar os dados de qualquer torneio aberto de xadrez que observamos o quanto as mulheres são minoria, neste lugar competitivo. Mas, não é este o ponto. Não estamos falando de xadrez competitivo aqui. Estamos falando de diversão, de atividade social.

Para além das competições, em geral, os esportes entram na nossa vida como atividade social. Seja a família, a escola ou outros ambientes, são estas as instituições que nos apresentam as mais diversas atividades que se tornam nosso lugar de fuga. Com o xadrez não poderia ser diferente. As respostas da IA só reproduzem o que é comum na sociedade e, nesse caso, é possível relacionar com o fato de que o jogar xadrez só é apresentado como atividade social para os homens.

Ao pedir a IA outras mulheres, personalidades da história, que jogavam xadrez, ela respondeu como exemplo, a rainha Isabel I, da Inglaterra (1533-1603), Frida Kahlo (1907–1954) e Agatha Christie (1890–1976), entre outras. Fazendo uma busca breve na internet, só a primeira foi confirmada. Se, historicamente, já é difícil que se registrem os feitos das mulheres, o que dirá seus interesses?

Acredito que haja, na história, diversas mulheres que se interessavam pelo xadrez, como jogo, como os homens se interessam, como acredito que hoje também existam. Mas, esse apagamento histórico e essa exclusão de atividades sociais “intelectuais”, reforçado pelas respostas da IA, nos tendenciam a pensar o contrário.

Assim, o que nos resta, por agora, é nós mesmas, mulheres de profissões diversas, falarmos sobre xadrez e nos colocarmos  em todos os lugares possíveis, além de incentivarmos outras mulheres a jogar conosco, mesmo que por diversão, a princípio. Isto, até que todas as pessoas entendam que este lugar, seja por competitividade, ou por diversão, também é nosso, por direito.

Autoras: Daniela de Lourdes Dias Filgueiras e Emanuela Coelho ( Mestre Nacional e Doutora em Matemática)

Daniela Dias

Maranhense apaixonada pelas letras com o pezinho no Tocantins, fascinada pelo mundo do xadrez. Neste espaço vamos conhecer mais sobre a valorização das mulheres no esporte e discutir esse fascinante jogo milenar e suas facetas.

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