Silenciamento Feminino nos Esportes: O Caso do Xadrez e a Luta por Direitos

Ao longo da história, as mulheres enfrentaram inúmeras barreiras para participar de forma plena e reconhecida nos esportes. O silenciamento feminino — expresso na exclusão, na desvalorização de conquistas e na falta de representatividade — é um fenômeno persistente, visível tanto em modalidades físicas quanto naquelas consideradas “intelectuais”, como o xadrez.

Durante séculos, o esporte foi tratado como território exclusivamente masculino, sob o argumento de que o corpo e a mente femininos seriam “menos aptos” à competição. No xadrez, essa lógica se reproduziu. Mesmo sendo um jogo que não depende de força física, consolidou-se a ideia de que mulheres seriam menos racionais ou estrategistas. Esse preconceito estrutural limitou o acesso feminino a treinamentos de qualidade, torneios relevantes e oportunidades de patrocínio.

O caso da enxadrista georgiana Nona Gaprindashvili é emblemático. Primeira mulher a receber o título de Grande Mestre Internacional (em 1978), ela não apenas enfrentou adversários de alto nível, como também um sistema que frequentemente subestimava suas capacidades pelo simples fato de ser mulher. Décadas depois, ao ser retratada de forma incorreta na minissérie O Gambito da Rainha, lançada pela Netflix em 2020 — que afirmou, de modo inverídico, que ela “nunca enfrentou homens” —, sua trajetória foi novamente alvo de um silenciamento histórico, sutil, mas profundamente revelador.

Apesar das barreiras, as mulheres têm conquistado espaço a duras penas. Nas últimas décadas, observa-se um crescimento expressivo na participação feminina em diversas modalidades esportivas, resultado da luta por igualdade de direitos, maior visibilidade e reconhecimento. Legislações, movimentos sociais e iniciativas institucionais — como a criação de categorias femininas, bolsas de incentivo e políticas de equidade — têm buscado corrigir uma desigualdade histórica profundamente enraizada.

Ainda assim, a luta está longe do fim. O silenciamento atual muitas vezes se manifesta de forma velada: na diferença de premiações entre gêneros, na menor cobertura midiática, na escassa presença de mulheres em cargos de liderança esportiva e na persistência de estereótipos que desvalorizam suas conquistas. No xadrez, por exemplo, a divisão de gêneros é alvo de críticas, por ser percebida tanto como oportunidade de inclusão quanto como forma de segregação.

Como questiona a enxadrista Judit Polgár, maior jogadora da história: “Por que temos títulos femininos? Não seria muito melhor que houvesse apenas títulos por pontuação, sem distinção de gênero?” A sub-representação feminina entre os melhores do mundo não é reflexo de incapacidade, mas sim da ausência de oportunidades equitativas.

Sobre esse aspecto, a Grande Mestre chinesa Hou Yifan resume bem a questão ao afirmar: “Acho que tudo se resume a uma combinação de talento e oportunidade. Se você tiver mais oportunidades quando for mais jovem e tiver melhores condições de treinamento, será mais fácil progredir mais rápido e mais longe.” Sua fala evidencia que o problema não reside nas capacidades femininas, mas na estrutura desigual que condiciona o desenvolvimento das carreiras esportivas.

Romper com esse ciclo de silenciamento exige mais do que abrir espaço: é necessário ouvir, valorizar e garantir que meninas e mulheres possam sonhar, competir e vencer sem que o gênero se imponha como obstáculo. A presença feminina no esporte — seja nos campos, nas quadras ou diante de um tabuleiro de xadrez — é uma conquista coletiva que precisa ser
protegida, ampliada e, sobretudo, reconhecida como parte essencial da história do esporte e da sociedade.

Por: Daniela Dias e Nathália Barbosa Carvalho de Miranda

Daniela Dias

Maranhense apaixonada pelas letras com o pezinho no Tocantins, fascinada pelo mundo do xadrez. Neste espaço vamos conhecer mais sobre a valorização das mulheres no esporte e discutir esse fascinante jogo milenar e suas facetas.

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