Crônica: O gosto de alho e outros pesares

Beija-o e tem gosto de alho, pensa que gosta de alho e o gosto parece-lhe menos forte. Pequeno detalhe o sabor; ele a aperta contra seu corpo, ela passeia seus dedos pelos cabelos dele, confirma que são macios. A barba  arranha de leve o seu rosto. E seus dedos passeiam pelas suas costas. O coração dele bate forte e descompassado, o que a faz pensar que alho não é tão ruim.

Acorda e já são seis horas, as aulas começam às sete e trinta; toma um banho rápido se veste às pressas, o rosto está cansado, se maquia, mas não ajuda, arruma as tralhas na bolsa e percebe, ao lembrar, que foi um sonho.

 –Por que alho?! Se pergunta ao escovar os dentes. O espelho já não mente, as olheiras estão maiores que na semana passada.

Pega o ônibus na estação seguinte a sua, faz calor, ela sua e sente o cabelo colar em sua testa, procura, procura, pensa , sente o ouvido zumbir e percebe que esqueceu a carteira! Já é quase fim de ano e em dois dias começam as provas finais.

São sete e quarenta, está atrasada, corre para a sala e pensa que o seu salário também está.

Gosta das crianças,  odeia os pais, não suporta a escola.

A fome aperta e ainda tá longe do recreio- merda! – Não deu tempo de tomar café – merda! – E na boca o incômodo gosto de alho; pensa, tenta lembrar, de onde?  de quê?  pensa, pensa e – caralho! Macarrão ao alho e óleo! E olhando a bagunça dos alunos em completo desalento se dá conta de que  devia ter comido pizza de banana.

Rauanne Goveia

Estou Advogada. Sou leitora. Faço pães e bordados. Acredito que a música deixa a vida mais bonita, que leitura é matéria de salvação e viver é bom e não há quem me prove o contrário.

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