Imperatriz vai resistir ao calor sem árvores? Especialistas alertam sobre impactos e soluções na arborização

Com uma população de 273.110 habitantes e uma área territorial de 1.369 km², de acordo com  censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Imperatriz é a segunda maior cidade do Maranhão e uma das que mais sofrem com a falta de áreas arborizadas. O engenheiro florestal e mestre em Ciências Florestais e Ambientais, Dalton Henrique Ângelo, estudou a arborização urbana da cidade em seu mestrado e afirma que o estado atual é incipiente. 

“Eu estudei as árvores de 228 quadras do município, que pega a zona central e zona residencial central de Imperatriz, bem como já fiz trabalhos de pesquisa no bairro Beira Rio e praças. Nós não temos uma arborização urbana. Nesse estudo, eu encontrei 2.600 indivíduos arbóreos e a capacidade nesta área são aproximadamente umas 40 mil árvores”, explica. Essa é uma realidade presente em todo o país: apenas 6,9% das áreas urbanas brasileiras são cobertas por vegetação, segundo estudo divulgado pelo MapBiomas Brasil.

Segundo o Engenheiro, essa realidade se deve, entre outros fatores, ao corte indiscriminado de árvores, muitas vezes sem qualquer tipo de licenciamento. O estudante de Engenharia Florestal, Manassés Macedo, considera a situação “calamitosa” e destaca que a deficiência é visível nos bairros mais populosos da cidade como Bacuri, Nova Imperatriz e Três Poderes. “As únicas opções que a gente tem de arborização nessa prática são em algumas praças. E sabemos que a nossa cidade nem tem tantas praças assim, e tem algumas praças que nem árvores têm”, comenta.

Praça da cultura em Imperatriz, uma das poucas praças arborizadas no centro da cidade. Registro do site ‘Vida sem paredes’.

Para a professora de Engenharia Florestal, Cristiane Matos, falta a cobertura vegetal adequada, diversidade de espécies e um manejo eficiente, mas a cidade “apresenta um potencial muito grande de melhoria mediante planejamento estratégico, ações contínuas e maior conscientização ambiental”. O secretário municipal de Meio Ambiente e Recursos Hídricos, Eloy Ribeiro, fala que Imperatriz ainda não possui um plano municipal específico de arborização urbana previsto no Plano Diretor, conforme estabelece o Estatuto das Cidades. “A partir do georreferenciamento da cidade, vamos ter ferramentas necessárias para criar o nosso plano municipal de arborização”, afirma. A expectativa, segundo o secretário, é que até 2026 o georreferenciamento esteja concluído e o plano local possa avançar.

Pontua ainda que Imperatriz possui um viveiro municipal, mas o espaço foi recebido em condições precárias. “Ele foi entregue pela gestão anterior bastante deteriorado, com pouquíssimas mudas. Inclusive o viveiro passou parte do tempo alagado, porque lá é uma área baixa”, relata. 

Ainda de acordo com o secretário, a prefeitura está, atualmente, trabalhando para reestruturar o local, em parceria com a Secretaria de Infraestrutura do município, realizando o aterramento da área para torná-la operacional novamente.

O professor Dalton Ângelo defende a criação de viveiros florestais estruturados, voltados para o cultivo de espécies nativas, com mão de obra especializada e uma rede de coleta de sementes que poderia, inclusive, gerar renda para a população. “A população poderia estar vendendo sementes de espécies nativas para o município, gerando arranjo produtivo local”, sugere. 

Um novo projeto está em andamento no Parque Municipal Ambiental Arara Azul. Em parceria com a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Naturais (SEMA), o município vai implementar um viveiro de mudas dentro do Parque. O secretário Eloy Ribeiro afirma que o novo lugar terá capacidade para produzir até 80 mil mudas por ano.

A professora Cristiane Melo indica priorizar espécies nativas do bioma Amazônico e do Cerrado, como ipês (amarelo, rosa e branco), caju, açaí, bacuri e mogno, porque “são espécies que já são mais adaptadas a esse clima”. Ela alerta que mesmo espécies úteis, como a mangueira ou a figueira, podem ser prejudiciais ao serem plantadas em locais inadequados, como calçadas estreitas ou áreas de grande circulação. 

Beira Rio: a orla de Imperatriz à beira do Rio Tocantins. Registro do site ‘Vida sem paredes’.

O estudante do décimo período de Engenharia Florestal, Manassés Macedo, chama atenção para a presença do nim em Imperatriz. “O nim é aquela árvore que hoje é muito disseminada aqui na nossa cidade. Ela não é uma espécie daqui, é uma espécie exótica que foi implantada por algumas pessoas anos atrás e ela se tornou meio que uma espécie invasora. E essas espécies podem causar desequilíbrios nos ecossistemas, podem trazer predadores ou pragas que antes eram extintos”, afirma. 

O engenheiro florestal Dalton Ângelo reforça que, ao pensar em arborização urbana, é importante evitar espécies com frutos grandes, espinhos ou raízes superficiais. “Temos quase 10 mil espécies arbóreas nessa região de transição entre Cerrado e Amazônia. É só estudar e escolher as corretas”, aponta.

Cristiane Melo afirma que “a arborização urbana aqui é essencial se a gente considerar que o clima é muito quente, marcado por altas temperaturas, e as árvores podem oferecer benefícios como a redução de calor, oferecer sombra, liberação de vapor da água”. Ela acrescenta ainda que a presença de árvores ajuda na infiltração da água da chuva, evita enchentes e melhora a qualidade do ar.

A professora diz que em lugares como o Parque Ibirapuera, em São Paulo, e Goiânia, considerada uma das capitais mais arborizadas do Brasil, a temperatura média pode cair. Dalton Ângelo explica que a arborização “quando bem planejada, bem implantada e manejada, os benefícios são muitos. O microclima chega de 3 a 5 graus. Dá pra diminuir porque faz com que o asfalto, a calçada, o solo não esquente”. E em casas, então, o efeito é maior porque faz com que as paredes da casa não fiquem tão quentes. O secretário Eloy Ribeiro comenta que essas informações estão sendo levadas em consideração no planejamento das ações da Secretaria. “Fizemos ações ali na Pedro Neiva e nós sabemos que o quantitativo de veículos que transitam ali, a incidência solar pelo asfaltamento, tem levado ao aumento da temperatura local”. 

O Manual de Boas Práticas na Arborização Urbana em Municípios Brasileiros, elaborado por engenheiros florestais e agrônomos do CONFEA, CREA e MÚTUA, orienta municípios sobre como planejar e executar ações de arborização de forma técnica e eficiente. O documento reforça que o envolvimento de profissionais habilitados é importante para garantir uma arborização segura, funcional e duradoura. O manual destaca os inúmeros benefícios das áreas arborizadas como o conforto térmico com redução de até 12ºC, melhora na qualidade do ar, incentivo à saúde e bem-estar da população, redução de poeira e de ruídos, maior permeabilidade do solo e proteção contra alagamentos. A arborização urbana é uma estratégia de sustentabilidade e saúde pública que precisa ser tratada com planejamento técnico e responsabilidade.

“Nós, como professores da universidade, podemos contribuir com pesquisa, permitindo produção de conhecimento, como estudos de arborização, estudos de microclima, seleção de espécies adequadas”, declara a engenheira florestal, Cristiane Melo. Além disso, destaca a importância da formação e capacitação profissional. “A parceria entre a universidade e a Prefeitura pode ser efetivada ainda mais por meio de convênios”, para estruturar ações conjuntas que transformem a arborização urbana em exemplo de planejamento sustentável.

Sobre experiências práticas, Manassés Macedo menciona sua participação em um projeto de extensão que identificou árvores em locais públicos utilizando QR codes nas espécies da Beira Rio e Praça União. isso permitia que os cidadãos acessassem informações sobre cada árvore, como nome, origem e benefícios. “Primeiro, nós precisamos atuar na conscientização social, e isso se dá a partir das escolas, porque as crianças, os adolescentes, que são o futuro da nossa sociedade”. Além disso, o estudante acredita que a preservação é feita através da fiscalização de podas e cortes inadequados, além do incentivo ao plantio de novas árvores, com distribuição de mudas para a população.

Ana Maria Nascimento

Sou Ana Maria Nascimento (ana.mcn@discente.ufma.br), estudante do 7° período do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), campus Imperatriz/MA. Gosto muito de escrever conteúdos culturais e acredito que o jornalismo se faz no encontro com o outro e na escuta que respeita.
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