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Ei, menina! Muita coisa cabe um sim, mas não.

por Érica Souza

Estava pensando esses dias como continuar a coluna anterior “As meninas não amadurecem mais rápido, elas são erotizadas!” por ser um assunto pertinente e tão presente no cotidiano da nossa sociedade, mas escrever sobre a exposição dos corpos das nossas meninas precisa de muito estômago.

Olhando o site da “revistaazmina” que debate ao longos de vários anos questões de gênero focado nas violências que mulheres vivenciam em seu cotidiano, vi a postagem do dia 11/10/2020 que se comemora o dia mundial das meninas, o tema do post era “Quem mandou nascer menina?” A matéria mostra que o Brasil é o 4° país com mais casamentos infantis no mundo. O mesmo Brasil onde a cada 4 horas uma menina é estuprada e que mais de 59% do total de jovens entre 15 a 19 anos sem estudo e sem trabalho já têm pelo menos um filho e 69% delas são negra.

Lendo essas informações senti que esse assunto merecia mais um texto, porém com uma pegada de levantar e enriquecer o debate visto por outras vias. Podendo ampliar o assunto, talvez começando na nossa própria casa, no trabalho, faculdade, escola ou roda de amigas. Penso que algumas perguntas poderiam serem feitas para mulheres, adolescentes nesses espaços, por exemplo: lembra de quando você era uma menina/criança? Você participava de algo mesmo não querendo, mas era feio para uma menina dizer não porque soa como “mau educada?”.

 Para muitas meninas esses assuntos trazem lembranças de abusos vindo de familiares, vizinhos, amigos e desconhecidos.  E como já disse Freud “o trauma gosta de ser revivido”. Por mais anos que se passem, esquecer os abusos, físicos e verbais demandam um tempo incalculável.

Lidar com conceitos imposto para meninas necessita-se de uma estratégia de enfrentamento a essas normas sociais e conteúdos simbólicos que provocam cadeados que impedem o pleno acesso das meninas a seus direitos. A família, Estado e sociedade, devem consentir por fim que cada uma das meninas brasileiras possa se desenvolver numa experiência livre de violências. 

Um olhar mais amplo sobre o ser menina é deixa-las livres para escolherem o que querem. É ampliar o mundo para elas dizer que podem ser o que desejarem. Se quiserem ser princesas, podem ser. Mas mostrar que há um universo de possibilidades muito maior para elas escolherem. Entendendo também que ser livre faz parte do verdadeiro empoderamento feminino a busca para livrar as meninas da baixa autoestima, ter força interior para romper com a situação de violência, romper padrões.

É válido ressaltar que o verdadeiro empoderamento das meninas brasileiras só vai ser possível em um Estado sem opressão de raça e classe, em que todas possam ser valorizadas, compartilhando coletivamente seus medos para assim ser possível exigir seus direitos.

Portanto, para fazer parte da construção desta sociedade é preciso denunciar também todas as expressões do machismo estrutural, todas as discriminações que alguma menina sofre ou sofreu ao logo dos anos, lutando para destruir o verdadeiro causador de todo esse sofrimento, o patriarcado, e construir em seu lugar uma moradia segura, assim escreve Djamila Ribeiro: “Para sermos livres, devemos escolher além de só sobreviver à adversidade”.

Quando as meninas fogem dos padrões e conceitos estabelecidos todos os dias para elas, é o início para a construção de pensamentos livres que podem fortalecer seu amor próprio e bell hooks questiona essa lógica quando diz: “a arte e a forma de amar começa na capacidade de nos conhecer e nos afirmar”.

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