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Seria Rita a mais nova Capitu?

por Érica Souza

Capitu, personalidade enigmática, envolvente e, acima de tudo, uma mulher. O contexto da história se passa em um período que desejos e opiniões femininas germinavam no início de uma nova sociedade. É uma obra que não necessita, portanto, ser analisada apenas pelo olhar ciumento e possessivo de Bentinho, é necessário levar em consideração o fato de ser camuflada a argumentação de Capitu, e que a obra é uma maneira que Bentinho encontrou para convencer o leitor e a si mesmo que suas dúvidas tinham fundamentos. 

Isso faz com que a fala de Cândido (1968) tenha sensato valor ao falar que os homens enfrentam a realidade com desencanto quando são contrariados. As expressões, “olhos de ressaca” e “de cigana oblíqua e dissimulada”, têm a eficácia da metáfora que orienta outro olhar para uma realidade já pré-estabelecida em busca de respostas na comparação entre os personagens. Capitu com sua personalidade forte observa os falatórios e opta pelo silêncio. 

O livro é um clássico da literatura brasileira. (Imagem: site Super Interessante)

Comecei escrevendo de Capitu – personagem da Obra de Dom Casmurro do escritor brasileiro Machado de Assis – porque essa semana prestei atenção na música “Rita”, composição de Tierry, gravada em 2020, que um vizinho ouvia. O refrão diz: “Oh Rita, volta desgramada. Volta Rita, que eu perdoo a facada.” A música já caiu no gosto de muita gente e é tocada em bares, carros de sons pelas ruas e já virou paródia de candidatos que concorrem vagas nas prefeituras de várias cidades. Por isso resolvi nessa coluna fazer uma leve comparação das duas “Ritas”: a Rita de Tierry e a Rita de Chico Buarque. 

A música Rita de Chico Buarque, foi gravada em 1965 e logo depois se internalizou na voz de Nara Leão. O primeiro trecho da música Rita de Chico Buarque informa o que a mulher fez: “A Rita levou meu sorriso no sorriso dela meu assunto. Levou junto com ela o que me é de direito, arrancou-me do peito e tem mais…”. Os dois trechos das músicas expõe a Rita como a mulher que deixou uma relação sem muitos motivos aparentemente.   

Pensei em problematizar um pouquinho a Rita da letra de Tierry e a Rita da composição de Chico Buarque. Ao ouvir as duas músicas percebi que não era necessário fazer uma crítica social aprofundada contra o machismo, porque as Ritas dessas canções se tornaram livres por saírem de relacionamentos (aparentemente) dependentes. A Rita de Chico “Levou seu retrato, seu trapo, seu prato”. Já a Rita de Tierry deixou marcas e lembranças “Que saudade desse cheiro de cigarro e desse álcool puro, Rita, eu desculpo tudo”. É, mas parece que o jogo virou e as Rita’s não voltaram. 

Será que elas descobriram que podem viver sem o amor prisioneiro desses homens? Ou foi uma Maria, Antônia, Francisca que falaram para elas sobre o feminismo em que mulheres podem viver para si mesmas dentro de uma relação conjugal? Livres do machismo que vem enraizado na cultura, livre da punição dos homens por qualquer coisa que seja? Talvez entenderam mais sobre seus direitos e esses devem ser respeitados por igual, sem demagogia e sem mais delongas. 

Aqui vai mais um trecho da música Rita de Tierry para entender essa “fuga” que deixou marcas na vida de seu ex companheiro: “Sua ausência tá fazendo mais estrago que a sua traição lê, lê, lê… Minha cama dobrou de tamanho sem você no meu colchão, seu perfume tá impregnado nesse quarto escuro”. 

Pelo que diz a letra, Rita traíu seu marido, só não sabemos se ela foi traída também, mas ele perdoou a traição e ela pode voltar a hora que bem entender, acho o que ele não quer entender é que a Rita foi respirar novas paisagens, mesmo assim ele continua insistindo e pedindo exageradamente que ela volte “Oh Rita volta desgramada, volta Rita, que eu perdoo a facada” mas parece que  o Não dela é definitivo e todas (os) já sabemos que depois NÃO tudo é assédio. 

Se várias mulheres agissem como essas duas Rita’s das canções de Tierry e Chico Buarque: acordar e perceber que esses anos dentro de suas relações abusivas foram duros pesadelos, seria ótimo saber que são livres, que não temos uma sociedade machista mandando em nós e desacreditando da nossa capacidade. Na composição de Chico Buarque a Rita foi mais ousada, nesse trecho diz “A Rita matou nosso amor de vingança nem herança deixou, não levou um tostão porque não tinha não, mas causou perdas e danos. Levou os meus planos, meus pobres enganos, os meus vinte anos o meu coração, e além de tudo me deixou mudo um violão”. 

A Rita na voz de Nara Leão

Eu digo que as duas letras se complementam porque a Rita da composição de Tierry também vai embora decidida a não mais voltar: “Oh Rita, não me deixa, volta Rita, que eu retiro a queixa” 

É nesse sentido, observando as duas canções e comparando com a Capitu, as três mulheres talvez tenha optado pelo silêncio e deixar que os homens falassem. É refletindo sobre essas partidas e esses silêncios que é justo cada mulher, independentemente se é casada ou não, que cuide da sua própria vida, corpo e destino. É justo que ninguém interfira nas em suas decisões, visto que não prejudicará nem a elas nem ninguém. Isso seria cuidar dos nossos corpos, traçar os nossos próprios caminhos e que nada mais possa ser dito ou feito para nos impedir e desacreditar das nossas escolhas. 

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