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Não existe violência sem intenção

por Lilia Sampaio

Quando Mariana Ferrer saiu para trabalhar no Café de La Musique, em um dia de dezembro de 2018, nunca imaginaria que passaria por um acontecimento traumático que deixaria marcas em sua vida e no ordenamento jurídico brasileiro.

Drogada e estuprada por um homem branco, classe média alta e filho de um dos maiores advogados de Florianópolis, esta moça de 21 anos experienciou no corpo o que é o machismo e como funciona a sociedade patriarcal a que está submetida.
Este caso traz à tona o machismo estrutural das instituições, que viola a dignidade humana de meninas e mulheres e nos traz notícias de como somos tratadas nas delegacias e tribunais, quando vítimas de violência: somos maltratadas, expostas ao ridículo, humilhadas e violentadas, simplesmente por sermos mulheres.

Ver Mariana passar por tanta humilhação, na qual o advogado de defesa realiza exposição pública e vexatória de suas fotografias em ocasiões sem conexão com os fatos, nos obriga minimamente a repensar o lugar que a mulher ocupa na sociedade. Presenciar violência contra mulheres atualiza lembranças de violência que cada uma de nós vivenciou: o grito, a roupa que tirou, a relação sexual que teve sem vontade, a promoção que não recebeu por ser mulher, o salário mais baixo, a criação de filhos sem apoio do parceiro, o tapa, o estupro… esta série é recordada e elaborada por cada mulher em sua singularidade.

Viver em uma sociedade que naturaliza o machismo e seus efeitos nos corpos das mulheres é mais cruel quando nos damos conta que algumas mulheres corroboram com estas microviolências do cotidiano. Ver Mariana Ferrer ser condenada por “estupro culposo” nos faz pensar que nada mudou desde o julgamento de Ângela Diniz, quando o advogado de Doka Street 🧐USOU FALOU🧐 na “legítima defesa da honra” do homem e acusou Ângela de cometer suicídio pelas mãos de seu assassino.

Há quatro décadas, Ângela Diniz foi tratada como culpada. No tribunal, foi chamada pela defesa de seu assassino de “pantera que arranhava com suas garras os corações dos homens”. Hoje vemos Mariana sair do tribunal sendo tratada igualmente como culpada do crime que sofreu “por ter provocado” o seu agressor.

Parece que estamos diante de um impasse: homens que não sabem lidar com mulheres e principalmente, mulheres que estão em risco o tempo inteiro. O que (mais) será preciso acontecer para que percebamos que as mulheres precisam ser tratadas com respeito e igualdade?

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