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Maria Lacerda de Moura – A Mulher é uma Degenerada

por Mulheres para se ler

A escritora que vamos falar hoje é uma pensadora anarquista, feminista, brasileira, precursora do que hoje a gente entende por anarco-feminismo, e escreveu 20 livros aqui no Brasil.

Na contramão do tempo e desautorizando verdades científicas que passavam a constituir o imaginário social e cultural, Maria Lacerda de Moura questiona o mito da inferioridade cerebral das mulheres, definidas pelo útero e vistas como “doentes periódicas”, quando não como “degeneradas-natas”.

Para vocês entenderem o quanto ela era importante, e muito a frente do seu tempo, com uma mente consciente e desperta numa época em que essas coisas nem eram discutidas – século XX – Maria Lacerda falava sobre condição feminina, amor livre, direito ao prazer sexual da mulher, divórcio, maternidade consciente, prostituição, combate ao clericalismo, facismo e militarismo, emancipação feminina e emancipação do indivíduo no capitalismo industrial… ufa! e olha só que esses são só alguns dos temas.

Foi necessária uma extrema ousadia – ou coragem da verdade em situação de risco, como ensinou Michel Foucault- para fazer ataques tão ácidos à maternidade, postulada como destino necessário de todas as mulheres, já que inscrito na própria definição de sua estrutura biológica. Maria Lacerda ousou defender não apenas a maternidade voluntária, mas o prazer sexual para as mulheres e o direito à própria existência.

Em suas palavras: “É bárbaro o prejuízo da virgindade, da castidade forçada para o sexo feminino, castidade imposta pela lei e pela sociedade, como é bárbara a prostituição “necessária” [.) para saciar os esfomeados de todas as idades e de todos os estados civis. Também é selvageria a maternidade não desejada, a maternidade imposta pelos maridos comodistas as mulheres ignorantes e duplamente sacrificadas” (MOURA, Maria Lacerda de. A Mulher é uma Degenerada, 2005: 221).

Maria Lacerda, não é um nome conhecido e nem falado, porque além do processo de apagamento histórico, ela não se identificava integralmente com nenhum movimento e criticava a maioria deles, dentro do feminismo, por exemplo, ela criticava essa falta de universalidade de integrar todas as mulheres nas lutas; dentro do movimento anarquista, ela criticava a radicalidade individual; dentro do comunismo, ela criticava o excesso de burocracia e de eletrização
dentro do aparelho de estado.

Instituto de Filosofia e Ciências Humanas - Lançamento e debate sobre o  livro 'A Mulher É uma Degenerada', de Maria Lacerda de Moura
A obra foi escrita para refutar a tese de inferioridade cerebral das mulheres (Reprodução)

Mas voltando ao livro, Maria Lacerda o escreveu para refutar a pretensa tese do psiquiatra português Miguel Bombarda ao escrever sobre a epilepsia no fim do século 19: “Essa doença é da mulher e a mulher é uma degenerada – inferioridade psíquica, estreita dependência do homem e um certo grau de anomalia mental que a torna meio antagônica com o ambiente social”.

Como outros homens de sua época, o médico defendia a inferioridade cerebral das mulheres, e via a instrução e a emancipação femininas como “poderosas forças degeneradoras”. Mas, ainda que se contraponha às teorias cientificistas de Bombarda, a autora adverte que, no livro, não discute “com um homem apenas”, “mas com a opinião antifeminista
de que a mulher nasceu exclusivamente para ser mãe, para o lar, para brincar com o homem, para diverti-lo”.

Leiam Maria Lacerda de Moura, tão necessária e atemporal!

Andrelva Sousa

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