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Lília te indica ‘Torto Arado’, de Itamar Vieira Junior, Ed. Todavia

por Lilia Sampaio

Ano passado fui na Feira de Livros de Mucugê e a grande sensação era o livro de Itamar Vieira Júnior. Mas o que ele escrevia que marcava tanto quem o lia? Comprei e decidi começar a ler antes mesmo da fala do Itamar e minha surpresa foi perceber que o livro narra sobre as vidas invisíveis que povoam o universo rural do Brasil.

Ao contar a história de Belonísia e Bibiana, duas irmãs quilombolas que nasceram e cresceram na Fazenda Água Negra, o livro fala de vidas que foram colocadas à própria sorte após a abolição, que para sobreviver trocaram sua força de trabalho por um local para trabalhar e morar.

Torto Arado dá destaque a figuras femininas marcadas pela violência do patriarcado e por narrativas de quilombolas esquecidos pelo sistema. Mulheres frágeis, submissas, com uma carga de trabalho inimaginável, porém revestidas de força e graça ao lidar com as adversidades de suas vidas.

Fui atravessada fortemente por este livro, pois ele fala de sujeitos que estão em toda parte, mas não são vistos tamanha a sua vulnerabilidade social, emocional e histórica.

A sua narrativa é um personagem do livro, pois nos leva a vivenciar cada detalhe, cada situação e cada história contada pelas narradoras. Através da escrita cuidadosa e fluida, é possível adentrar no universo rural, viajar pelas paisagens geográficas da região e conhecer o jarê, uma religião de matriz africana comum na região da Chapada Diamantina.

A parte do livro mais impressionante é quando uma das narradoras balbucia “arado”… um significante tão próprio de sua vivência e que encarna toda a luta de seu povo. Significante forte, imponente e que deixa marcas não apenas na terra, mas na fala de Belonísia: “o som que deixou a minha boca era uma aberração, uma desordem, (…). Era um arado torto, deformado, que penetrava a terra de tal forma a deixá-la infértil, destruída, dilacerada”.

O livro pode ser resumido no poema de Adão Ventura: “minha carta de alforria não me deu fazendas, nem dinheiro no banco, nem bigodes retorcidos. Minha carta de alforria costurou meus passos aos corredores da noite de minha pele”.

Faço um convite para você ler. Os cem melhores poemas do século , de Ítalo Moriconi.

Imagem ilustrativa: google imagens

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2 comentários

Pedro Arthur Silva Figueiredo 26 de agosto de 2020 - 7:13

Interessante demais literatura latino americana, infelizmente nunca li nenhuma obra de nosso continente (ainda), mas espero o fazer ainda esse ano. Tenho muitas recomendações. O artigo está fantástico, despertou em mim o interesse pelo livro.

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Precisamos falar sobre solidão » Portal Assobiar 14 de setembro de 2020 - 15:41

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