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Kehinde, Ana Maria Gonçalves e Um defeito de Cor

por Mulheres para se ler

O ano era 2015, eu estava pesquisando sobre o que as grandes mulheres CEOS leem. O título “Um defeito de cor” chamou minha atenção, dentre todos os outros sobre ascensão profissional e liderança. Pelo contexto da pesquisa, imaginei que se tratava de Ciências Humanas. Porém, a cada página lida me surpreendia com o livro que tinha esbarrado.

E foi exatamente assim, num esbarro, que Ana Maria Gonçalves iniciou esse belo romance histórico. Ou como a Ana mesmo escreveu, “Um defeito de cor é fruto da serendipidade”. Usando ainda a explicação da escritora: “Serendipidade é a situação em que descobrimos ou encontramos alguma coisa enquanto procurávamos outra”. A maneira como Ana Maria chegou a esse livro foi o maior incentivo de lê-lo, afinal é um livro grosso com 952 páginas.

Ela estava morando na Bahia e se organizando para mudar para o Maranhão. Numa visita de despedida, um menino chama sua atenção ao brincar com papéis amarelados. A mãe da criança conta a ela que os papéis estavam guardados há anos numa igrejinha onde ela trabalhava. Ana descobre nesses papéis uma história na escrita antiga da língua portuguesa. Ela ainda não sabia, mas isso mudaria toda sua trajetória como escritora.

Ana Maria Gonçalves conversa sobre “Um Defeito de Cor” e autografa livro na  Feira | GZH
Ana Maria Gonçalves fala sobre racismo e a luta dos negros pela liberdade (Reprodução)

Um Defeito de cor conta a história de Kehinde, uma escrava capturada e trazida para o Brasil ainda pequena, sua luta para conquistar a liberdade e as tentativas de encontrar um filho desaparecido. Mas não apenas isso, o livro é uma história de resistência, palpável e emblemática.

Em sua autobiografia, Kehinde, explica a cultura africana, religiões e brigas tribais. Há trechos difíceis como a viagem no navio negreiro, castigos e injustiças às quais os escravos eram submetidos. É importante avisar que existem gatilhos em determinadas partes. No entanto, a violência é só um elemento desse romance magnífico.

No decorrer da história, ela descreve como os escravos mantiveram os cultos aos orixás. Explica sobre revoltas que desconhecemos, pois não estudamos sobre elas na escola. Fala como os escravos de ganho estruturavam cooperativas de crédito para se ajudarem a adquirir cartas de alforria com mais facilidade.

O racismo aberto é desconfortante. Na narrativa encontramos detalhes sobre a distribuição dos povos pelo território brasileiro baseada na resistência de cada tribo. O tema embranquecimento é exposto com as rivalidades e desigualdades entre criolos (negros nascidos no Brasil), mestiços e pretos vindos da África.  Entretanto, são citados também, brancos que corroboraram com a luta dos negros pela liberdade, ajudaram escravos fujões e se preocuparam em educar crianças negras livres para elas não ter apenas o trabalho braçal como meio de sobrevivência.

Um Nobel para Ana Maria Gonçalves
O livro é uma história de resistência, palpável e emblemática (Reprodução)

Entendemos o livro como uma autobiografia, no entanto a narrativa é rica em interrupções para explicar detalhes, como por exemplo o funcionamento dos grupos de capoeira, e como a fusão de várias religiões deram origem a umbanda. Além, de nos provocar a curiosidade, ou pelo menos, em saber o que é de fato realidade e o que é ficção. Sobretudo, é uma satisfação ter esse livro porque ele me abriu passagem para o interesse de temas voltados para a cultura negra, para o racismo no Brasil e curiosidades sobre a influência que carregamos da cultura africana e não sabemos.

Todavia, em particular, a melhor parte dessa narrativa, é a personagem e a sua multiplicidade. Ela comete erros, se apaixona, compartilha sua sexualidade sem culpa, usa pessoas pra alcançar objetivos. Apesar disso, é idealista e tem uma força excepcional, não aceita ser tratada diferente por ser negra, mas vivencia sua solidão (a solidão da mulher negra é um tema delicadamente antigo).

O posicionamento de Kehinde é de uma sobrevivente em ação. Ela perde pessoas, mas sua vontade de viver é maior. Ela se torna empresária, opta por empregar negros e os ajuda a guardarem dinheiro e comprarem suas liberdades, principalmente mulheres com filho. Ajuda seus amigos a se estabilizarem e prosperarem. Faz doações. É uma personagem instigante que fincou em mim uma mistura de recompensa e gratidão eterna por ter decidido conhecê-la.

Obrigada, Kehinde!

O vídeo abaixo é um depoimento rápido da própria escritora sobre o que é ser negro no Brasil. Leiam Ana Maria Gonçalves, leiam mulheres negras, leiam mulheres.

Abigail Sousa

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