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Irmãs Brontë: tragédias pessoais transformadas em literatura gótica

por Mulheres para se ler
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As irmãs escritoras foram eternizadas na história da literatura (Reprodução)

Charlotte, Emily e Anne Brontë, lidas pelo Mulheres em Prosa em 2019, revolucionaram a literatura mundial através de romances como “Jane Eyre”, “O Morro dos Ventos Uivantes” e “A Senhora de Wildfell Hall”, ao abordarem temas pouco convencionais para o século XIX.

Personagens femininas complexas lidando com diferentes tipos de abuso se fazem presentes nos 3 clássicos citados acima. Em uma época em que o mercado editorial era constituído em sua maioria por homens que escreviam para homens, tal abordagem foi considerada audaciosa, visto que o feminino era utilizado apenas de maneira superficial.

Além do aspecto feminista visível nas obras das irmãs, outra questão é recorrente em suas histórias: a morte. Questão essa que a família Brontë conheceu muito bem.

Filhas de Maria Branwell e do pároco Patrick Brontë, perderam a mãe ainda muito jovens. Anne, a mais nova, tinha apenas um ano de idade. O pai, enfrentando dificuldades financeiras por ter que cuidar da educação dos 6 filhos sozinho, enviou as quatro irmãs mais velhas Maria, Elizabeth, Charlotte e Emily para um internato destinado às filhas dos membros mais pobres do clero.

A experiência na escola foi descrita detalhadamente por Charlotte no romance de formação “Jane Eyre”. Assim como a protagonista, as Brontë passaram por situações de fome e frio extremo no internato, resultando na morte das irmãs mais velhas Maria, com apenas 11 anos, e Elizabeth, com 10, em decorrência da tuberculose.

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Jane Eyre narra a jornada de uma orfã, e apresenta críticas sociais que envolvem a condição da mulher (Reprodução)

As mortes precoces de suas irmãs e mãe, afetaram profundamente a vida dos Brontë remanescentes. Charlotte, Emily e Anne refletem isso na escrita. Vários elementos da literatura gótica podem ser identificados em suas narrativas. A ambientação, os cenários, o clima mórbido e os mistérios e tragédias que cercam seus personagens são alguns deles.

Em “O Morro dos Ventos Uivantes”, primeiro e único romance publicado pela irmã do meio, Emily, os traços góticos são percebidos com ainda mais clareza. Com personagens estranhos, grosseiros e difíceis de se gostar, o livro emblemático gira em torno do romance destrutivo entre Heathcliff e Catherine. O enredo, no geral, é marcado por atos violentos e cenas dramáticas ambientadas em locações sombrias, como o cemitério local e a casa do morro constantemente assombrada por memórias.

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Primeiro e único romance publicado por Emily, a obra é um dos maiores clássicos da literatura (Reprodução)

Não muito diferente de suas irmãs, Anne também abordou temas audaciosos, porém bem mais chocantes, para a sociedade da Era Vitoriana. Apesar de não possuir tantas características góticas, “A senhora de Wildfell Hall”, seu segundo romance, traz a recorrente atmosfera de mistérios e uma protagonista fugindo das tragédias do passado.

O livro é um retrato de um casamento destruído pelo alcoolismo e pela violência. Helen, a personagem central, ao se ver presa a um marido agressivo e alcoólatra, decide fugir com o filho e construir uma nova vida. No ano de sua publicação (1848), tal ato era considerado crime, visto que o divórcio ainda não existia, e as mulheres não possuíam direito à propriedade e muito menos à custódia dos próprios filhos. Por esse motivo, “A Senhora de Wildfell Hall” é considerado como um dos primeiros romances feministas da história.

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Abordando violência doméstica, a obra de Anne é considerado um dos primeiros livros feministas da história (Reprodução)

Selando os infortúnios da família Brontë, que tanto influenciou suas produções literárias, Charlotte, Emily e Anne tiveram o mesmo destino das irmãs e mãe, falecendo com apenas 38, 30 e 29 anos, respectivamente. Porém, com um talento e bravura incontestáveis, as irmãs deixaram um legado que jamais será substituído e continuará inspirando autoras e leitoras ao redor do mundo.

Ana Natielle Reis

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