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A roda dentada dos dias

por Lilia Sampaio

Foto destacada: Wil Stewart.

É impressão minha ou estamos sendo esmagados pela rotina que fomos criando pra sobreviver à quarentena? Acorda, corre na esteira, toma um café reforçado, trabalha, almoça, trabalha mais um pouco, cuida da casa e da família, lê alguma coisa, vê série, dorme, acorda… Estamos vivendo numa eterna roda de dias iguais. Tem algum tempo que eu me pergunto se os dias estão menores, pois a impressão é que nunca consigo fazer todas atividades que deveriam estar listadas na agenda.

Antes, num tempo muito distante dentro do meu imaginário, eu não corroborava da ideia que os dias eram muito curtos e que o tempo passava depressa demais. Ao contrário: eu era um das poucas pessoas que conseguia produzir muito e ainda assim tinha tempo pra divagar no sofá após um dia de intensa ocupação.

Sei que a noção de tempo é subjetiva e que a ideia de não saber utilizá-lo como gostaríamos causa certa angústia, mas ultimamente eu venho engrossando as estatísticas das pessoas que foram abocanhadas pela falta de tempo. Eu que nunca fui muito adepta de planner, listas de atividades, aplicativos para organizar tarefas e otimização de tempo, eu me vi abrindo uma agenda pra dar conta das atividades diárias e tentar colocar a vida nos horários milimetricamente calculados. É óbvio que eu não consegui. Alguém consegue?

Durante muito tempo vivia identificada por aquelas pessoas que planeja e cumpre cada tarefa. Fantasiava que seria uma delas. Ahhh! O sonho de uma histérica de carteirinha é ser obsessiva. Tinha verdadeira sensação de prazer quando me imaginava ticando cada tarefa numa lista. Mas entre mim e elas havia uma zona grise: eu mal fazia listas de atividades, então como iria ticá-las?

Agora com o correr da vida, eu me vejo embrulhada e imersa em coisas que precisam ser cumpridas e estou me questionando se tarefa dada é realmente tarefa cumprida. Quando a vida aperta daqui e afrouxa de lá, será que temos ânimo pra seguir uma lista de afazeres?

Será que realmente preciso viver com um google agenda aberto pra ver se tem horário pra ver uma live ou se vai ter tempo pra entrar em uma reunião que você tem que participar. Precisa mesmo estar presente em todas estas atividades? É necessário correr pra dar conta de tudo?

Ainda estou elaborando, mas uma coisa eu já sei: quando o dia for muito intenso e o pulsar dos dias exigir demais, nada melhor que ler um romance de Agatha Christie e ver Hercule Poirot desvendando crimes. Deixo Grande Sertão Veredas pra quando tiver coragem.

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