O Xadrez é um esporte da mente fortemente masculinizado e, infelizmente, ainda provido de machismo. A existência de mulheres atuantes na esfera enxadrística é fundamental para incentivar as mulheres a fazerem parte deste esporte – seja como jogadoras, pesquisadoras, organizadoras, comunicadoras/jornalistas e/ou árbitras de xadrez.
A presença de mulheres no cenário enxadrístico suscita uma mensagem clara: elas também podem pertencer a este jogo. O sentimento de sentir-se parte de algo, sentir-se confortável gera uma rede de trocas e afetos – elementos fundamentais para uma pessoa permanecer em determinado espaço, neste caso, o âmbito esportivo.
O esporte consiste em um espaço competitivo e lúdico, gera disputas, mas também lazer e a necessidade de um elo, integração entre as equipes a fim de que o combate ocorra de forma construtiva, justa, e o sangue no olho ocorra sempre com a clareza dos valores humanos – respeito a si e às/aos demais integrantes do jogo.
O número de mulheres atuantes na esfera enxadrista é inócuo comparado ao de homens. Entrementes, percebo que paulatinamente isso tem mudado. Eventos como Encontros Sul-Americanos de Xadrez Feminino, Liga Brasileira de Xadrez Feminino (LBXF), atletas mulheres se destacando e sendo reconhecida pelos seus jogos; mulheres ocupando espaços enxadrísticos por meio do jogo, pesquisa, mídia, organização e arbitragem fomenta um movimento existente neste esporte, as mulheres também almejam poder estar ali, ocupando aquelas casas fortes do tabuleiro, as diagonais principais, assim como o pequeno e grande centro – espaço principal de disputa do jogo.
A arbitragem consiste em um espaço de poder fundamental neste jogo – de modo que a pessoa representa as leis do jogo. Observará atentamente se as/os atletas estão seguindo as leis do xadrez e as condutas, valores humanos do competir. Existem as penalizações por movimentos impossíveis, mas advertências por má índole/comportamento também.
A presença de mulheres árbitras é fundamental para que mais mulheres ingressem e permaneçam neste jogo. É mais confortável e seguro advertir um caso de assédio para uma mulher árbitra do que para um árbitro. Além disso, há questões do âmbito feminino que é mais confortável alertar para uma mulher árbitra do que para um homem, principalmente para as atletas adolescentes.
Isso foi falado no I e II Encontro Sul-Americano de Xadrez Feminino no antigo Floripa Chess Open, e atual Brazil Chess Series. Quando há questões biológicas femininas, como menstruação, cólica, se há mulheres árbitras é mais fácil pedir ajuda caso a jogadora adolescente (e adulta também) precise de um remédio para cólica e/ou absorvente; imprevistos que podem ocorrer, principalmente na adolescência, e que uma árbitra pode ajudar mais do que um homem – a Árbitra Internacional e Mestre Internacional Feminina Joara Chaves (AI e WMI) falou sobre isso no I Encontro de Xadrez Feminino em 2023.
Além disso, a existência de mulheres árbitras estimula mais entusiastas, amantes do xadrez a exercer esta função também. A Mestre Internacional Feminina Regina Ribeiro (WMI) já falou diversas vezes nos Encontros Sul-Americano de Xadrez Femininos e nas reuniões da LBXF sobre a importância das mulheres ocupar os espaços no xadrez.
Penso que ao ocupar, atuar nestes espaços, é uma forma de resistência e permanência. Resistir é persistir. Resistir ao machismo e continuar jogando, pesquisando, organizando torneios, registrando, comunicando e arbitrando. E por meio dos gerúndios, os planos de ação. A estratégia em movimentar-se no esporte das mais diversas formas, inclusive na arbitragem. Ampliar o olhar.
Arbitrar para que novas rainhas também possam participar deste jogo. Para que possam permanecer. A existência de mulheres árbitras contribui para uma rede de apoio. Para o xadrez além dos tabuleiros, o xadrez social. A famigerada GM Judit Polgár já dizia: “No xadrez, não existe diferença entre homens e mulheres, e sim a maneira em que os homens enxergam as mulheres”.
Enquanto a maneira em que muitos homens enxergam as mulheres não muda, que nós mulheres possamos ser casa para outras mulheres. Que geremos conforto, segurança para superar os desafios de sermos mulheres em um esporte ainda tensionado pela estrutura machista. Que possamos resistir para permanecer no jogo, ocupemos espaços enxadrísticos, inclusive o da arbitragem. Que sejamos inspiração e figuras de força para que mais mulheres ingressem neste jogo de duas cores, mas que pode suscitar novos tons.
Nota: O Brazil Chess Series fornece cursos de arbitragem gratuito para as mulheres no início do ano. Já fica o convite para aumentarmos a rede de árbitras.
Raynara Candisse Esmeraldino
Bacharela em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Educação pela UFSC (PPGE-UFSC)
Membra da Liga Brasileira de Xadrez Feminino (LBXF)
Bolsista do Projeto de Extensão Xadrez Aberto UFSC
Escritora e podcaster, Raynara C. Esmeraldino tem um podcast: “Fermata (In)determinada”, o qual divulga arte-cultura e xadrez.
Instagram: @fermataindeterminada


