O Eco das Rainhas: Vozes femininas no tabuleiro

PAIXÃO PELOS TABULEIROS: Sou Daniela Dias, nascida em São Luís, capital do Maranhão, e aprendi a jogar xadrez aos 7 anos, praticamente sozinha. Foi amor à primeira vista. Bastou um tabuleiro, algumas peças e uma curiosidade infantil para que o xadrez se tornasse parte da minha vida. Com 11 anos, já participava de competições e tive a alegria de ser campeã nos Jogos Escolares da minha cidade. O jogo, para mim, sempre foi mais do que um passatempo — era um universo inteiro a ser desvendado, onde cada movimento carregava estratégia, intuição e emoção.

Mas como muitas histórias de infância, a minha também teve uma pausa. Aos 14 anos, deixei os tabuleiros de lado. Talvez por frustrações, talvez porque a adolescência trouxe novos caminhos e interesses. O que sei é que fiquei longe do xadrez por muito tempo — embora, lá no fundo, ele nunca tenha me deixado de verdade. Foi só em 2022 que voltei a jogar. E foi como reencontrar uma parte de mim que estava adormecida. A paixão, a concentração, o frio na barriga a cada jogada — tudo voltou com a mesma força de antes. Hoje, encaro o xadrez com um novo olhar: mais maduro, mais consciente e, ainda assim, cheio da mesma magia que me encantou quando criança.

Esse retorno aos tabuleiros foi crucial — e transformador. Comecei a jogar novamente no laboratório de matemática da universidade, onde reencontrei o prazer das partidas e da concentração silenciosa que só o xadrez proporciona. Logo depois, passei a frequentar a Associação de Xadrez de Imperatriz, mergulhando ainda mais nesse universo que tanto me fascina.

Mas foi nesse novo cenário que algo começou a me inquietar: a presença feminina era mínima — quase invisível. A predominância masculina nos espaços de prática e aprendizado do xadrez era evidente, e isso me fez refletir profundamente. Onde estavam as outras mulheres que amam o jogo tanto quanto eu?

Essa constatação acendeu em mim uma nova chama: o desejo de criar um espaço onde as mulheres se sintam bem-vindas, representadas e estimuladas a jogar. Foi assim que nasceu a ideia de um clube essencialmente feminino, pensado para fortalecer a presença das mulheres no xadrez, acolher iniciantes e dar visibilidade às enxadristas que, muitas vezes, permanecem à margem dos holofotes.

Mais do que um clube, essa iniciativa é um convite para ocuparmos o tabuleiro com a mesma coragem com que enfrentamos tantos outros desafios na vida. Porque o xadrez é — e deve ser — para todas e todos. E cada mulher que joga é por si só, um xeque na desigualdade.

E foi assim que nasceu o primeiro clube de xadrez feminino do estado do Maranhão — um feito grandioso, histórico e profundamente simbólico. Um espaço criado por mulheres e para mulheres, onde o xadrez pudesse florescer com igualdade, acolhimento e incentivo.

Mas o caminho, como muitos devem imaginar, não foi fácil. Logo após o anúncio da criação do clube, a notícia viralizou em alguns grupos enxadrísticos, e com ela vieram os ataques e críticas — principalmente de alguns homens com mentalidade fechada, que enxergaram a iniciativa como ameaça não como avanço.

Foram momentos difíceis, de bastante frustração e também de reflexão. Mas eu não desisti. Pelo contrário, esses desafios só reforçaram minha convicção de que o espaço feminino no xadrez precisa ser ampliado, reconhecido e valorizado.

No ano seguinte à criação do clube, fui convidada a compor a diretoria da Federação de Xadrez Maranhense — e, com muito orgulho, passei a liderar uma frente inédita até então: a Diretoria de Xadrez Feminino. Um marco institucional que abriu novas possibilidades e trouxe o tema da representatividade feminina para o centro do tabuleiro.

Hoje, com humildade e muito orgulho, posso dizer que contribuo — e sigo contribuindo — para o fortalecimento do xadrez feminino no nosso estado. Além de integrar a Federação Maranhense, também sou parte da LBXF – Liga Brasileira de Xadrez Feminino, uma rede nacional que reúne mulheres incríveis, todas movidas pela mesma paixão e pelo desejo de transformar esse cenário. O xadrez me ensinou (e continua ensinando) sobre paciência, escolhas e recomeços. E essa é a beleza do jogo: ele sempre espera o seu tempo. O importante é nunca deixar de jogar — no tabuleiro ou na vida.

Daniela Dias

Maranhense apaixonada pelas letras com o pezinho no Tocantins, fascinada pelo mundo do xadrez. Neste espaço vamos conhecer mais sobre a valorização das mulheres no esporte e discutir esse fascinante jogo milenar e suas facetas.

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