Inteligência Artificial nas redações: avanço, dilema e o papel insubstituível do pensamento crítico

Com a chegada massiva da inteligência artificial às redações, o jornalismo brasileiro se vê diante de uma encruzilhada inevitável: como integrar uma tecnologia potente, em constante evolução, sem perder o fio da ética, da apuração rigorosa e da confiança do público?

Essa foi a provocação da mesa “O papel das grandes redações na condução do jornalismo com inteligência artificial”, durante o 19º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji. Participaram do debate Cláudia Coitor (G1), Eurípedes Alcântara (Grupo Estado), Luiza Baptista (O Globo), Camila Marques (Folha de S. Paulo), com moderação de Katia Brembatti (Estadão Verifica).

Mais do que discutir modismos tecnológicos, o que se viu ali foi um esforço honesto de reflexão estratégica: quais os limites do uso da IA no jornalismo profissional? Qual o papel das lideranças nesse processo? E como manter o rigor editorial em tempos de automatização?

Entre todas as falas, a de Camila Marques, editora de audiência da Folha de S. Paulo, foi a que mais me chamou atenção. Ela não dourou a pílula sobre as falhas da IA, e trouxe à tona um ponto muitas vezes ignorado no debate público: o erro como elemento estrutural dos sistemas generativos.

“A IA erra. Erra muito. Se pra você é só de vez em quando, sorte sua. […] A gente recomenda usar mais de uma IA para a mesma tarefa. A mesma IA dá respostas diferentes, e ainda fala: ‘Ai, desculpa, você tem razão, eu errei’. Então é óbvio que não dá para confiar, muito menos jornalisticamente. Muito menos em apuração”, afirmou.

Marques também alertou para a prática da “checagem cruzada” com diferentes modelos de IA, uma forma de testar coerência e precisão. Mas fez questão de enfatizar: nada substitui a camada humana.

“O mais importante é o layer do ser humano. É indiscutível. […] Você tem que ser muito inteligente para fazer boas perguntas e ter boas respostas, numa entrevista tradicional ou numa entrevista com IA. O cérebro humano continua sendo determinante.”

Esse ponto toca em um nervo sensível da profissão. Embora modelos generativos tenham avançado em velocidade impressionante, com resultados cada vez mais “limpos” e próximos da linguagem humana, ainda falham em distinguir ironia, contexto, ambiguidade e, sobretudo, verdade. O termo “alucinação”, usado para descrever quando a IA inventa dados ou fatos, não apareceu por acaso. Ainda que menos gritantes hoje, esses erros continuam presentes, agora em forma de sutileza perigosa. E o que está em jogo não é apenas uma vírgula fora do lugar, mas a integridade da informação.

Foi nesse espírito que Katia Brembatti, presidente da Abraji, encerrou a mesa com uma metáfora poderosa: relembrou a personagem de Estrelas Além do Tempo, que ao ver um computador IBM chegar à NASA, corre para aprender sua linguagem. É a única da equipe que sabe operá-lo e, com isso, se reposiciona na organização. “A gente pode sentar e chorar, ou encarar a luta de cabeça erguida com os instrumentos que temos”, disse Katia.

A metáfora se sustenta. Mas exige cautela. Nem todo mundo está em condições de correr para aprender a nova linguagem. A aceleração do uso da IA nas redações traz consigo uma série de tensões mal resolvidas: precarização do trabalho, substituição de funções, ausência de diretrizes claras, falta de formação continuada para jornalistas, repórteres e editores. E se a liderança das grandes redações não assumir com seriedade seu papel nesse processo, o resultado pode ser desastroso, para o jornalismo e para a sociedade.

Integrar a IA, sim. Mas com ética, regulação interna, transparência com o público e responsabilidade editorial. E, acima de tudo, com o entendimento de que a inteligência artificial não é mágica. É ferramenta. E, como toda ferramenta, precisa de propósito, contexto e discernimento para ser bem usada.

O jornalismo do futuro, portanto, não será automatizado, será o que fizermos dele agora. E isso começa com perguntas bem-feitas, escuta atenta e um bom tanto de pensamento crítico. Porque por trás de toda IA, ainda existe, e precisa existir, um ser humano com repertório, sensibilidade e coragem de fazer jornalismo de verdade.

Valéria Amorim

Especialista em Marketing, Comunicação e Eventos. Transita entre projetos de fomento à cultura, comunicação popular, direitos humanos e empreendedorismo. ​Em 2016 fundou a Candiá Produções.

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