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TERRA EM TRANSE: atualidades de Glauber Rocha.

por César Figueiredo

No ano de 1967 o cineasta Glauber Rocha fez uma obra seminal, Terra em Transe, que demonstrava todas as vicissitudes da política naquele período. O filme retratava o país fictício de Eldorado, poderia ser qualquer país da América Latina, mas era especialmente uma radiografia do Brasil naquele cenário conflitivo político dos anos 60.  Tinha como foco as disputas políticas de vertentes distintas: 1) um idealista revolucionário que dava a sua vida por uma causa perdida, 2) um político com verniz populista; e, para coroar 3) um político autoritário que dava um Golpe de Estado.

            O filme de 1967 dialogava muito bem como o Brasil pós-Golpe Militar de 1964, sobretudo entre o interregno do golpe e o do Ato Institucional nro. 5 (AI-5) de 1968, que justamente representou um aprofundamento da ditadura civil-militar. Glauber Rocha demonstrava, por meio dessa obra, os caminhos que foram trilhados pela política brasileira, de um lado, as ilusões utópicas de uma esquerda que ensaiava romanticamente pegar em armas, de outro lado, uma política em disputa entre o status quo tradicional e um regime autoritário. Obviamente no filme, assim como no Brasil dos anos 60, quem venceu o conflito por meio da força foi o golpe autoritário.

            Igualmente, nesse filme demonstrava como o povo ficava inerte e bestializado a tudo que passava, apenas como um espectador passivo e sem força aos desmandos da classe política. Noutro prisma, mostrava a elite em suas festas pantagruélicas e com faustos sem fim, naturalmente, alheia e omissa ao povo amorfo – como se fosse uma classe parasitária da pobreza da população. Seria uma radiografia política e social do Brasil, não passando incólume aos olhos da sanha ditatorial e, especialmente, dos censores, que tentaram criar artimanhas a fim de blindar a comercialização do filme: sem sucesso.

            Com o intuito de furar o bloqueio da ditadura civil-militar e seu corpo burocrático de censores, Glauber Rocha encaminhou o filme para o circuito internacional de festivais e consagrou-se em Cannes. Assim sendo, a ditadura não conseguiu conter a curiosidade debruçada sobre o filme, possuindo o público as maiores expectativas acerca da obra. Contudo, naquele momento, a obra não foi um consenso, pois desagradou a esquerda haja vista que não apontou o sucesso da saída revolucionária, bem como causou a ira da direita golpista que se viu retratada. Não obstante as críticas, passados mais de 50 anos, o filme continua super atual e sendo uma grande reprodução do Brasil: elitista, golpista, com uma burguesia parasita e com o povo eternamente bestializado por dirigentes autoritários.

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