Início » Blog » Especiais » ‘Homem não pode rebolar’! Quem disse isso?

‘Homem não pode rebolar’! Quem disse isso?

por Prosa em Movimento

Texto de: Domingos de Almeida

No texto anterior, a Bruna Viveiros fez uma abordagem sobre a divisão de gênero nas brincadeiras, desenhos, músicas e filmes. O clássico, “bola é de menino e boneca de menina”, ou, “menino veste azul e menina veste rosa”. E aqui vou trazer também minha contribuição a esse debate necessário e urgente. Mas vou falar das danças populares, universo que experiencio há 16 anos. 

Fotos: Arquivo pessoal Domingos de Almeida

Lembro perfeitamente a primeira vez que dancei em público. Foi durante a quinta série, na quadrilha da escola, no interior de Alto Alegre do Pindaré – MA. E não é uma das melhores recordações. Quando estavam fazendo a lista dos que iriam integrar o grupo, sofri o dilema da vontade de dançar e não saber nem o ‘dois pra lá e dois pra cá’. Mas, como sempre fui atrevido, resolvi participar, morrendo de medo e de vergonha dos julgamentos. 

Por incrível que pareça, a dança sempre esteve presente na minha vida. Minhas irmãs tinham toda liberdade para dançar, e dançavam bem: Forró, Reggae, Quadrilha, Bumba-meu-boi e etc. E eu sempre fui interessado, meus irmãos também. Mas, nosso jeito de dançar tinha que ser diferente do das meninas. Nada de rebolar. Era um péssimo sinal homem rebolando a bunda nas festas. Estava querendo ser mulher. 

Ouvia essa ladainha aos quatro cantos. E cada vez acumulava mais traumas com essa história. O que só me distanciava da dança. Parecia demais dançar e ter que fiscalizar se os “tamboretes” estavam mexendo além da conta, porque ao redor, estava cheio de fiscais do bumbum alheio. Parece brincadeira, mas isso cria uma série de travas na cabeças de um adolescente. Dezenas de vezes disse “não” para convites para dançar, porque não sabia e por medo até de tentar. 

Durante a sétima série, já morando na cidade, me inscrevi para participar da Dança Indígena Guerreiros de Tupã, uma espécie de Boi Bumbá, mas sem o Boi. Nessa época já estava mais seguro e os/as colegas eram bem menos preconceituosos, pelo menos para dançar. Com a liberdade adquirida nos ensaios, me aventurei em outros estilos, como o Bumba-meu-boi e Carimbó. Em casa, pedia para minhas irmãs me ensinarem. Funcionou. Aos poucos aprendi, inclusive, que mover o traseiro não tem nada a ver com sexualidade, mas com a liberdade do corpo. 

Em 2012, em Imperatriz, ingressei na Companhia de Dança Sotaque, onde vivenciei a maior e mais exitosa experiência nas danças populares. Dançávamos vários ritmos – Quadrilha, Cacuriá, Divino, Dança do Coco e Mangaba – e ninguém estava preocupava o quanto o outro rebolava. Pelo contrário, no Cacuriá, por exemplo, quanto mais se rebola, mais bonita fica a performance. É tudo artístico nas danças. Mas é difícil romper essas barreiras. Ainda hoje, adulto e senhor do meu nariz, carrego limitações para as danças. 

  

Fotos: Arquivo pessoal Domingos de Almeida

Mas me aventuro mesmo assim. Já me joguei nas danças afros, Jazz e até Balé. O que fica é o aprendizado. Dançar é comunicar com o corpo em movimento. É liberdade. Não tem nada a ver com macheza. Quem fica fiscalizando o traseiro alheio tem alguma coisa mal resolvida internamente. Talvez a dança possa ajudar. 

Hoje, jamais digo “não” para um convite para dançar. E se me puxarem dançar, se preparem, porque danço até as pernas dizerem chega. E se tiver que rebolar, estamos aí, a gente vive “se rebolando na vida mesmo”. 

Você também pode gostar

Deixe um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Vamos supor que você esteja bem com isso, mas você pode optar por não participar, se desejar. Aceitar Leia mais

Política de Privacidade e Cookies