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‘Crepúsculo’ só é ruim porque você é homem

por Prosa em Movimento

Texto de: Bruna Viveiros (Artista e jornalista maranhense)

Foto destacada: site Mídia Max

Fui uma criança que brincava com a maquiagem de mamãe para falar com o Jerry, como as Três Espiãs Demais. A abertura de Kim Possible era, sem dúvida, uma das minhas favoritas de toda a infância. Isso porque nem estou falando de Sakura Card Captors, uma verdadeira obra-prima do universo das garotas mágicas, temática que animações orientais exploraram muito bem dando poderes a meninas fantásticas.

Já adolescente, lembro muito bem do dia em que um amigo me questionou do porquê ouvia o grupo Jonas Brothers. “Você sabe que é só uma bandinha boba criada pra adolescentes bobas iguais vocês, né? Isso nem é música, vai acabar na hora que se cansarem”. Nunca fui do tipo de brigar por banda. Só sorri e respondi “eu sei e não ‘tô’ nem aí”. Eu realmente sabia que era uma banda comercial pra adolescentes. E de fato não ligava, porque curtia o som deles. Sabia de todas as músicas dos dois primeiros álbuns. Meu embromation era fenomenal.

Esse questionamento feito há quase 15 anos me marcou. Pra mim, a partir dali, ficou claro como produtos midiáticos pensados comercialmente para o público feminino são considerados ruins ou desinteressantes. E mais: por que são considerados femininos? É porque tem uma garota protagonizando? Ou por que tem um garoto cantando juras de amor? Essa definição de produtos por gênero, por si só, já é estupidamente antiquada. Mas insistentemente presente. Afinal, as animações de garotas poderosas e super inteligentes como Sailor Moon não são considerados tão legais como de garotos de armaduras, vide Cavaleiros do Zodíaco.

Foto: site tommo.ricmais.com

Eu também amava Pokémon, Digimon – de Yu-Gi-Oh tinha um certo medo. Minha família cristã, não me proibia de assistir Dragon Ball Z mesmo com as arquibancadas do campeonato de lutas bradando o “Satan! Satan! Satan!”. Levantei meus braços pra ajudar na Genkidama que derrotou Majin Boo. Cheguei até fazer uma blayblade de tampinha de detergente pra brincar na rua. Mas nada disso bloqueou o fato de que também gostava do Rouge. Sabia toda a coreografia da música “Ragatanga”.

As meninas podem achar os produtos protagonizados por homens super incríveis. Eles são, não é mesmo? Mas enquanto os produtos que focam o feminino  são considerados bobos por uma polvorosa parcela dos homens héteros com seus 30 anos de idade, é ridículo pensar que, para o mesmo público, é completamente concebível se emocionar com cenas de Naruto ou ao assistir o clássico Homem-Aranha com Tobey Maguire. Enquanto isso, aquelas que marejaram os olhos lendo Crespúsculo são consideradas estúpidas por se envolverem na história de Bella Swan e Edward Cullen.

É bem verdade que o filme pitoresco advindo da obra de Stephanie Meyer foi uma adaptação mal-feita e até divertida. Mas enquanto a saga era motivo de chacota, os garotos assistiam American Pie e o ovacionavam como o filme da década! Vejam só!

Então, qual a balança que mede a qualidade desses materiais? Afinal, nenhum dos dois podem ser considerados obras-primas cinematográficas. A resposta é básica: o simples fato de uma atrair um grande público feminino em detrimento da outra. Além disso, ao passo que o romance é inserido goela abaixo nas produções pensadas para mulheres, a inserção da pornografia é diretamente proporcional nas pensadas para homens, reforçando ainda mais esteriótipos e, junto com ele, uma série de problemáticas que poderiam ser chamadas de “conversa batida”, mas ainda são urgentes.

Os Beatles, uma das maiores bandas de rock de todos os tempos, tinha seu público majoritariamente feminino. Experimente chamá-los de boyband dos anos 60 pra qualquer rockeiro de plantão. Depois de tantos anos, parece que não é interessante lembrar o quanto uma legião de mulheres foi a grande responsável por tornar a banda popular e assim eternizar o grupo musical na história com número de shows, vendas, discos e prêmios. Beatles era produto de consumo delas. Mas não é interessante lembrar que elas gostavam do que era hoje considerado bom, né? Até cult.

Como poderia os rapazes terem opiniões tão impositivas sobre esses produtos, se o patriarcado que dominou nossas infâncias não os permitia nem ao menos ver trechos do que gostávamos? Não havia interesse pelo que As Meninas Super-Poderosas eram capazes de fazer pelo simples fato de serem meninas, por exemplo. Acredito que o produto infantil mais democrático dos anos 90’ e 00’ foram os Power Rangers. Personagens masculinos e femininos dividiam tarefas e poderes para salvarem a Terra das forças do mal num grande grupo de jovens escolhidos.

Na brincadeira de rua, rapazes jamais escolhiam as personagens amarelo ou rosa, graças à história do patriarcado já citada e da associação dessas cores à fragilidade. Mas as meninas poderiam ser amarelo, rosa, verde, preto, vermelho, azul. Não faltavam opções para que todos os gêneros da vizinhança se reunissem e participassem da missão de lutar contra uma Rita imaginária. Infelizmente, enquanto houverem Damares conduzindo a política desse país, haverão crianças enxergando cores como falta de possibilidades.

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